Queria saber manter as coisas que amo, intactas. Livres das agruras e tormentas, dos ventos fortes, dos abalos irreversíveis das palavras de extrema verdade. Queria saber preservar as coisas que amo, jovens; ainda puras e alvas, plenas e inocentes, sem que precisassem saber tanto sobre a crueza da vida, mais ainda sobre a aspereza do tempo e seus afunilamentos. Queria saber proteger as coisas que amo das realidades cotidianas, das violências inadiáveis que alguns dias irão trazer para seus olhos serenos. E poupar as coisas que amo das coisas que preciso para seguir amando. Queria não ter de pedir nada a elas, nada que elas não quisessem conceder por livre e espontânea vontade. Mas sou apenas humana e o tempo também lapidou o que conheço de mim. Também afunilou minhas saídas, encurtou meu futuro, estreitou minhas vontades. O tempo também operou em mim suas podas, seus outonos. E eu preciso ainda, mais que nunca, da verdade inteira – que ela me vista e me revele, que ela me desnude as máscaras e me integre.
Queria saber cultivar as coisas que amo sem inferir nada meu em sua essência. Mas amar é andar em duas vias paralelas, justamente causando inferência nos passos alheios, sem toca-los. Amar também é alterar o que a vida do outro produzirá de frutos, e todos eles, serão seus – do amor e de ninguém. E será somente bem depois da minha partida, que eles virão maduros, alimentar o que houver de ser. Somente depois de longe, quando eu estiver longe, é que se poderá ver de mim a face insuspeita contornada em nitidez e seus motivos. Somente quando não se está mais ali, é que se pode mensurar o que havia. E sempre será tarde demais para entender o todo do entendimento. Queria saber mover os fios do tempo de acordo com o bordado. Mas é o contrário e eu não fui o Criador de nada. Eu amo muito a muitas coisas. E sou fiel ao que sou porque nada mais me resta, nada mais.
Necka Ayala. 14.julho.
Queria saber cultivar as coisas que amo sem inferir nada meu em sua essência. Mas amar é andar em duas vias paralelas, justamente causando inferência nos passos alheios, sem toca-los. Amar também é alterar o que a vida do outro produzirá de frutos, e todos eles, serão seus – do amor e de ninguém. E será somente bem depois da minha partida, que eles virão maduros, alimentar o que houver de ser. Somente depois de longe, quando eu estiver longe, é que se poderá ver de mim a face insuspeita contornada em nitidez e seus motivos. Somente quando não se está mais ali, é que se pode mensurar o que havia. E sempre será tarde demais para entender o todo do entendimento. Queria saber mover os fios do tempo de acordo com o bordado. Mas é o contrário e eu não fui o Criador de nada. Eu amo muito a muitas coisas. E sou fiel ao que sou porque nada mais me resta, nada mais.
Necka Ayala. 14.julho.
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