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28 de jul. de 2010

Lacuna

O fato é que eu não sei. Não sei se é uma rua em especial, um achado qualquer, uma viela, uma avenida ou a estrada em si que me falta. Não sei se é um pôr-de-sol gasométrico, um alaranjado do planalto ou um cinza-chumbo desvairado à paulistana. Não sei se é um prato, um tempero, um gosto ou um aroma. Talvez seja um objeto, um corpo qualquer por sobre o qual pousar de novo os braços em conforto. Um timbre? O que será que se ausenta? O fato é que não sei o que, mas algo me falta. É uma sensação de vazio em alguma parte de mim que tem pulsado. Uma inquietação, um desassossego, uma necessidade de grito e de movimento, de ida, ainda que eu não saiba para que lado. Tenho procurado. Testei sons, conheci bairros, tentei prestar mais atenção às aparências das pessoas nas ruas, dentro das salas, nos coletivos, e dentro delas. Nas pessoas tenho encontrado o mesmo vazio, a mesma ausência a esmo. Em todas falta algo que simplesmente não está, não vai com elas onde vão – há vãos nas pessoas, frestas, portas entreabertas, sorrisos incompletos, frases imprecisas, palavras quase certeiras, gestos quase feitos, ensaiados, rascunhos, tentativas, rabiscos, prévias. Tenho ouvido discos que não convencem e, ali, sinto que falta também o acerto, a emoção que não causam. Tenho visto cenas que se repetem e são sempre quase iguais às precedentes; não tenho visto brilhos nos olhos nem encontros inesquecíveis. Falta, falta alguma coisa. No céu daqui, agora, falta lua, sobram nuvens, venta muito e faz frio. No chão daqui faltam passos, sobram ruas, há esquinas e todos rumam para lugar nenhum. O fato é que não sei o que me falta. Enquanto isso, deixo que a verdade venha e ocupe o espaço do que não está, do que não vai comigo aonde vou, in-completa.

Necka. 28.07.2010

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