Eu não sabia se tinha o direito de defender minha vida, quando minha vida tinha se transformado na falta do que eu precisava para viver, do que eu queria para viver. Eu não entendia para quê preservar uma vida se o que a movia havia ido-se dela. A razão de tudo estava lá, morava lá, eu sei, tinha certeza de que era lá que eu devia e desejava estar. E eram a devoção pelas paredes da casa e pela luz do sol que começava em maio, pelo vento frio e leve que vencia a fresta. Era a retidão ensinada pela Olinda, era o tempero roubado quando ela se recusara a ensinar, era o dom do pai que eu ainda desconhecia e as respostas afiadas de outra metade de sangue, renegado. Eram as ruas, as folhas de plátano sobre elas, caídas no sépia dos outonos que sempre retornavam pontuais e justos. Era o sabor fiel das coisas que eu amava e os sorrisos afetados das pessoas que eu amava. Era o acompanhar das mudanças e a porta aberta para quem pedia. Meus mendigos, meus amigos, meus pratos e a preparação da casa para as noites de partilha. Era o som do sino da sala, a luz da vela do querido, o cheiro do incenso favorito, a solidez do chão onde eu tocava. Era o soar da Igreja perto o tempo todo. E os conhecidos pelos quais passava ao ir pra casa. Sem cada coisa dessas, pelas quais eu vivia e observava, sentia e contemplava, para que a vida afinal de contas? Porque eu sabia que tudo se refere ao tempo decorrido. E levaria outra vida inteira para criar o desenho dos meus pés sobre as calçadas. Acho que quando defendi, quando cruzei a linha que me tiraria de lá para sempre, minha vida de fato acabou e minha alma ficou presa, vagando eternidade afora naquele espaço. A vida que eu sabia, ficou lá. Mas recebi outra alma que sorri e brinca, sem calçadas. Uma alma benfazeja que voa e se relaciona com o branco em camadas que só se vê dos céus. É outra esta vida agora. Sou outra. E esta, quando lembra demais e transborda de saudade, é como se soubesse ainda mais porque está aqui e é esta. Vir embora me permitiu parir outra de mim no mesmo corpo. Mas eu não sabia. Talvez eu tenha morrido lá e ido pro céu, não sei...eu não sei...
Necka Ayala
Necka Ayala
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Leio.