Talvez não precises mais cobrir de algodão e carinho onde doía. Ainda dói e vai doer para sempre, enquanto eu sentir o que sou como uma carne só que não esquece. Enquanto eu for uma coisa só que não esquece. Pode ser que o tempo furte de mim também minha memória exata, leve pessoas e nomes, tempos e datas, endereços e cenas. Mas talvez não precises mais cuidar do que de mim virou escombro; havia corpos espalhados pelo meu chão quando me viste. Estavam destroçadas minhas ilusões, minhas promessas para a vida toda, minha inocência, minha fé, minha vontade de seguir como jurara. E trataste de atender a cada coisa quebrada com mãos de delicadeza. Foste, este tempo todo, a curandeira precisa. Repetiste todas as manhãs as mesmas palavras redentoras. Gravaste por cima da aspereza tua serenidade inabalável. Acho que agora me revejo quase pronta para ir, sem que precises escorar meus passos hesitantes de antes. Podes erguer a cabeça junto comigo e mirar apenas. Olhar para o alto e para aquilo que ainda nos cabe percorrer em sintonia e cumplicidade. Ainda sou e sempre serei a fiel escudeira das máscaras que despiste. Ainda és e sempre serás a detentora dos direitos que tive de prantear passados. Mas o tempo disso tudo é findo e temos direito à colheita. Colhe de ti a melhor que fores, a mais adulta, a mais sábia, a mais segura. A mulher apenas que existe no fundo que conheço e visito, quando deitas nua e nada te detém. Colhe o que te fez vir até aqui, ainda que com reservas e temores. Solta, pode soltar cada um deles. Deixa que o calor de hoje os evapore de ti, todos! Anda por aí, apenas anda, com a mesma destreza que tens ao guiar e ao passar os dedos pelos fios do teu cabelo. Anda porque o tempo tem andado mais veloz que nunca – é que nem tu nem eu esperamos mais. Talvez eu não precise mais declarar aos quatro ventos quanto vejo. Acho que é hora de descansarmos da vigília e afundarmos quietas nos braços dos sonhos que tivemos e tratamos de erguer. Não há, de fato, nenhum futuro. Ele é ainda hoje, será ainda hoje quando nos virmos. Ali, anda em passos sólidos na direção que bem entenderes, mesmo que diste da minha. Pode ser que chegues e eu esteja longe, caçando verbetes, compondo acordes sem nome algum. Entra, a casa é tua também. E só há um corte sobre o dedo; nada mais dói tanto quanto as lembranças que espanto quando abres sorriso.
Necka Ayala
Necka Ayala
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Leio.