Pesquisar este blog

24 de ago. de 2010

Um último pôr-de-sol...

Quando futuro era a palavra que não vinha, quando esperança era alimento perecível, quando eu estava lá e não me era possível ver horizonte onde era linha, quando tentar era um gesto ensimesmado e inútil, rodando em círculos eternos, se auto-reprisando a cada vez que o dia reiniciava sua jornada improfícua sobre a pele esquecida que me cobria, só havia um céu azul sobre tudo. Eu não sabia que havia asa e vento. Não conhecia meu corpo diluído em vôo, sem dimensão, sendo levado ao frescor do aço, no peso do pássaro gigante que corta nuvem e acha caminho onde não vemos. Quando querer era o que já estava vivido, quando amanhã era a palavra que não vinga, quando esperar era só o que restava e todas as palavras que existiam não bastavam, o céu abriu-me os olhos à força. Era irresistível assistir à tamanha beleza, ao espetáculo único que se dava ali, pelo espaço mínimo de uma fresta diante de um último pôr-de-sol sulista. Quando já me dava por satisfeita da própria vida que me consumia, quando meus lábios se verteram em uma mera abertura por onde escoar silêncio, desci. Desci pasma e deslumbrada, rendida mais uma vez ao todo da beleza que acabara de presenciar. De novo, a beleza me devolvera motivo e rumo. De novo, mais, eu queria mais asas, mais vôos, mais espetáculos de Deus e suas travessuras infindáveis, sempre escondidas em cantos nos quais temos de despir os medos ao adentrar. Mais, eu queria mais. E outra beleza se deu de onde eu menos a buscara. Estava ali, o tempo todo, desde meses atrás. E, embora eu não a tivesse visto, a reconheci quando pronunciou um sim tímido e temeroso. Achei que fosse meu, que fosse minha...a tua boca, pequena, que pouco prometia. Mas era pouco que eu precisava e eu só podia crer se fosse assim, pouco. Tua boca agia em vez de prometer mais. E quando tudo era um instante, quando tudo parecia estar prestes a partir, definitiva e brevemente, quando o que eu queria não me era mais compreensível, quando futuro passou a se vestir de um risco a mais depois do ponteiro, tu, vieste tu. E se agora ainda há um motivo para festejar esta vida, mais números, estas linhas pela face gasta, se ainda há um porquê escondido por Deus em outro canto, vou apenas, seguindo a beleza que encontro a cada dia que reinicia sua jornada justa pela pele. O tempo talvez seja o pai do que é justo. Sim, ainda sinto uma saudade imensa daquilo que estava construindo quando tudo ruiu e foi findo. Ainda me corta o peito, simplesmente, lembrar! Mas agora há um espaço acima do próprio horizonte. E és também um motivo e um rumo.

Necka Ayala. 24.08.2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leio.