Pesquisar este blog

8 de ago. de 2010

Ineterno

Eu acho que a semente disso tudo já estava lá, bem antes. Lembro de ter pensado, talvez assim, meio de canto de olho, como quem não quer crer mas ta ali, feito aparição, de ter pensado nisso, um dia, por uma razão que agora esqueço. Uma razão que nada tinha a ver com razão, pelo contrario! Mas ocorre que era, desde então, já era, desde cedo, uma tentativa insana de preservar o tal do amor, a coisa que nasce entre duas pessoas que se gostam pra caramba, que se querem bem e se amam como se fossem irmãos de nascença, da vida toda, amigos lindos pra vida toda. Amor de achar linda a cara da pessoa, porque é e fim e isso não tem de ter explicação. De achar engraçada a forma como fala, a mistura de sotaques e a fome de poesia; de achar que aquele amor merecia todo respeito, porque era divino e humano, todo feito pra durar pra toda vida. E ele foi crescendo sem dizer palavra, sem medir a altura pela parede e à lápis, sem hesitar passos, nem pular etapas. E já era, desde então, uma certeza, também, de que aquilo já era amor, nem cabia que fosse mais nada. Ele já era tudo, já era teu e era meu e era presente do Sol – bastava! Mas dentro, no fundo, lá onde moravam as coisas segredadas, devia haver, eu acho que sim, uma semente inesperada. Uma coisa qualquer que sussurrava, dizia ao pé do ouvido de louca que já vinha qualquer coisa pra lá de encantada, dessas que se quer pra vida toda. E pode não parecer, mas eu te juro, que naquela tarde de antes, poucas horas antes, era nisso que eu pensava, que não podia ser, que eu tava errada, que viria a consciência depois da alma lavada, repetir: é amor, é amor, não mexe em nada! Alma-gêmea, anjo bom, anjo da guarda de terceiros, inclusive – e era vaga a lembrança daquilo que acenava. Ali, juro, virando uma noite anterior aos prantos, no solo, onde não gosto de pisar, rente ao chão, de quatro e de mãos atadas, que eu defendia o amor acima de tudo que, por dentro, latejava. Ficaria ainda horas imaginando a cidade vazia da tua cara ao lado, das tuas ruas adivinhadas, dos metrôs e das asas sobrevoando nossas cabeças; ficava me imaginando andando de novo só, tentando achar caminho num lugar tão novo quanto o azul era novo no espelho nem sempre azul dos teus olhos. E foi isso, mesmo, juro, defesa ao amor que esconjuro. De querer preservar tua carne dos meu dentes, teu beijo da minha pressa, teu corpo da minha ânsia. De querer defender tua alma das minhas juras, tua crença das minhas juras, tua calma das minhas idas. E era amor. No fim de tudo, no começo de tudo, no decorrer do tempo em meio a tudo, ainda é amor. Eu que defendo com lábios e dedos à paixão que me convence e me devolve à vida e a mim mesma, vivi de amor até aqui, desde lá atrás. Ainda que não creias, ainda que aches que dia desses eu renegarei a essa palavra e a esse exercício, venho pondo água e dando sol ao amor que nos acometeu. Venho oferecendo o sangue e a pouca loucura que me resta, à sede do amor que me suga, em taças recém lapidadas pelas tuas mãos profundamente brandas. E porque amor é o todo que me pedes, que me causas, que me doas, que me custas, é hora de entender que o sim foi meu. E foi, pra vida toda.

Necka Ayala. 08.08.2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leio.