Fazia frio, muito frio. Andávamos em calçadas que eu não tinha como familiares, longe do bairro, longe de tudo que eu sabia da minha terra. Fazia frio e eram duas pessoas boas, que não queriam me ver com frio. Mas acima de tudo, duas pessoas que tinham um gosto, uma elegância acima do comum, que eu também nunca vira. Nunca vira peças feitas sob encomenda por um Alfaiate! Muito menos vestira. Volta e meia ele aparecia na minha casa de novo. Dizia ela que, quando ela partisse, seria minha herança, tal e qual uma camisa roxa que eu amava e nem cor tinha mais, desbotada pelo tempo, o implacável apagador. Uma vez ela propôs um rateio, na família, brincando, para comprar uma camisa-nova-para-a-sandra! E todos rimos da generosidade debochada, alegre em servir a quem amava. Quem partiu fui eu daquela cidade, minha terra, minhas coisas mais amadas. Parti também para preservar intactas as coisas mais amadas, no sagrado perdão, o redentor! Veio o entendimento a mim, veio o ponto-de-chegada a ela. Eu, morando longe dos dedos cujas pontas fofas eu mordia, dos cabelos branquinhos e da risada assanhada, voltei a sentir frio depois de muito tempo longe, muito longe. Voltei para mais perto do sul, minha morada; e venta muito aqui, nessa esquina e nas outras que me têm todas as manhãs. Ela, entregue aos desígnios de Deus, o sabedor, resolveu que ainda hoje, 23 anos depois, não posso sentir frio. Me mandou o casaco adiantado, igual como o vi, perfeito e feito pelas mãos de Alírio, o alfaiate! Era dela, agora é meu e será para sempre a parte dela que, a mim, ficou intocada! Só lembro dela como era e como está fotografada dentro, no mais profundo fundo da minha alma, que aprendeu a receber, enfim, e já tardava! Vestirei o casaco quando o frio for muito ou a saudade ainda maior. Quando abrir outubro, ainda que esteja ainda quente. Ouvirei a voz pequena dela ao telefone quantas vezes minha memória, a cuidadora, permitir. Eu não esqueço nunca as coisas mais amadas. Nem do sabor de ter lido cada bilhete que ela me mandava, nem de ter provado do arroz soltinho que ela preparava, nem esquecerei que ela, também esqueceu a única mágoa. Meu casaco será escudo contra o frio da paulicéia-desvairada. E dentro de mim, ela estará a salvo, quentinha e abrigada, para todo sempre, amém!
Tua Sandra, Mosinha!
Tua Sandra, Mosinha!
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Leio.