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10 de jan. de 2011

...e vai despir tuas vestes coloridas, te revelar a nudez sem máscaras, furtar a cor serena e pálida que te cobre a face, aquecendo demais teu sangue de repente. E vai percorrer a pele fina que te encobre o corpo, erguer teus poucos pêlos claros, deixa-los livres pairando à luz da lua. E vai tocar por dentro teu peito descansado, impor seu ritmo e faze-lo dançar descompassado. Vai permitir que caibas, exata, entre seus dedos, enquanto te perdes por ali, vasta e sem medos, nos caminhos desconexos que desenhou tua espera. E vai fazer ruir tua incerteza sobre tudo, levar embora tuas reservas, calmamente. Sem que tu percebas, estarás de novo nua e sem saída, diante do que te quer inteira. Olharás em seus olhos e verás teu próprio brilho, incandescente, latejando e varando as horas sem sossego. Enquanto sacias a sede sem escolhas, enquanto entregas teus braços ao contorno dele, da forma como ele sugerir que estejas. E estarás mais pronta do que agora para render-te os cantos, abrindo todas as frestas, arejando a casa, marejando os olhos e deixando que venha à tona a maresia que te pôs à deriva dele. E vai abrir-te as portas, adentrar sem pressa, vai sentir-se em casa, sorver contigo o que tua taça ofertar. Ainda vai pedir que faças o mesmo, que mudes de lugar, que sejas tu a apropriar-se dele; que estejas tu a mando do que queiras, que venhas tu tomar o que te cabe. Vem somar contigo as muitas faces que apresenta, vem repartir contigo as águas que são mútuas e que a ele sustentam. E vai deixar-te indefesa, perante o que tu mesma cultivaste, como fruto à mesa, finalmente.

Necka. 10.01.2011

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