Não é porque não podes vê-lo que ele deixa de existir. Está ali dentro, sim, guardado e esperando à espreita do seu instante inteiro, todo; e ele virá de novo assaltar teus planos, tuas vontades, te aparecer de repente quando menos contares com ele. Virá e te levantará do descanso da incerteza. Não o vês agora, porque te cega o olhar tua companhia mais antiga, mais conhecida e cômoda. Mas ele está onde o deixaste, ainda nu e pesado, largado sobre os lençóis, secando ao vento. E ele voltará a ti, como o conheces, cheio de vontades novas e de outras que costuma repetir quando faz falta. Não é porque não podes toca-lo agora que ele não reage. Ele se afasta, toma para si o tempo que merece, cultiva consigo mesmo e em silêncio as coisas que pretende ousar quando for a hora. Como a terra, ele se recolhe, espera que orvalhos prometidos o alimentem, posto à luz do sol em pleno dia. À noite, ele engendra raízes que o garantam firmeza e dêem frutos. Se prepara e se enfeita, se cultiva e espera, calmo, enquanto escolhe as palavras desta vez. Quando estiver de novo pronto e teso, virá ter contigo uma outra viagem, outra experiência, outra nudez. Te sequestrará o juízo, roubará as rotas que traças e os trânsitos, adiantará teus relógios e sugará de ti o pouco fôlego que te resta. Quando o vires de novo, lembra! O todo é que o rege e o justifica, nada menos, nem um segundo antes da hora da gota, nunca!
Necka. 01.10.2011
Necka. 01.10.2011
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