O céu se enche de novo desses gomos acinzentados, densos, cheios d’água. Cobre a cidade de ameaça, de atraso, de adiamento. De novo venta forte, batendo as cortinas, anunciando a hora de cerrar as janelas e esperar. Vem logo a primeira gota sobre a terra seca. De novo sem o sol se pôr por trás dos prédios, atrapalhado por eles, de linhas retas e concretos; sol que se punha refletido nos vidros, posto de lado pela recorrência de mais e mais temporais. De novo anoitece antes da hora e as calçadas podem ter lembranças sobre margens de rios, de quando as ruas eram eles, beirados por verdes e bichos soltos. Os tons de negro e azul se mesclam num mesmo espaço aberto já quase sem asas.
Às vezes eu nublo. E me encho desses gomos perolados de recordação. Meus olhos, nessas vezes, se confundem entre refletir futuro ou marejar passado. Lembrar, cobre-me o dia de ameaças, de atrasos, de adiamentos. O que faria, esqueço, porque me ocupo de sentir falta e é de ruas que conheço melhor do que a mim. É de sorrisos que sorriem mais largo do que eu. E de abraços antigos, tão familiares quanto meu nome, já que minha face também se refaz e se distorce a cada fase da lua. Às vezes não me reconheço. E vem logo a primeira gota sobre a fronte dispersa, desligada da data de hoje no calendário sempre imóvel, ainda que o tempo não pare. De novo o brilho do sol que me habita, se esconde atrás dos escombros de linhas desfeitas e concretas. De novo anoitece rápido demais e não há como dizer tudo. De novo meus contornos lembram o tempo quando foram fios e lhes beiravam faceiros os sonhos esperando vez. Os tons de prata e preto tingiram meus cabelos e se mesclam num mesmo espaço arredondado onde moravam, antes, meus planos, esperando talvez. Quem sabe nublem por fim todas as coisas, como eu, como o céu desta cidade; quem sabe seja esse o legítimo ciclo natural de tudo e, cíclicos, sejamos todos os seres sobre a terra. Às vezes nublo somente para poder raiar um novo dia, quando outros tons se permitem dançar a céu aberto, quando outros sons se fazem ouvir, quando desperto...
Necka Ayala. 06.01.2011
Às vezes eu nublo. E me encho desses gomos perolados de recordação. Meus olhos, nessas vezes, se confundem entre refletir futuro ou marejar passado. Lembrar, cobre-me o dia de ameaças, de atrasos, de adiamentos. O que faria, esqueço, porque me ocupo de sentir falta e é de ruas que conheço melhor do que a mim. É de sorrisos que sorriem mais largo do que eu. E de abraços antigos, tão familiares quanto meu nome, já que minha face também se refaz e se distorce a cada fase da lua. Às vezes não me reconheço. E vem logo a primeira gota sobre a fronte dispersa, desligada da data de hoje no calendário sempre imóvel, ainda que o tempo não pare. De novo o brilho do sol que me habita, se esconde atrás dos escombros de linhas desfeitas e concretas. De novo anoitece rápido demais e não há como dizer tudo. De novo meus contornos lembram o tempo quando foram fios e lhes beiravam faceiros os sonhos esperando vez. Os tons de prata e preto tingiram meus cabelos e se mesclam num mesmo espaço arredondado onde moravam, antes, meus planos, esperando talvez. Quem sabe nublem por fim todas as coisas, como eu, como o céu desta cidade; quem sabe seja esse o legítimo ciclo natural de tudo e, cíclicos, sejamos todos os seres sobre a terra. Às vezes nublo somente para poder raiar um novo dia, quando outros tons se permitem dançar a céu aberto, quando outros sons se fazem ouvir, quando desperto...
Necka Ayala. 06.01.2011
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