Ser feliz trouxe o medo da morte. Fez o tempo encurtar o tamanho dos ponteiros. Criou a insônia que não vinha. Gerou a necessidade de uma descendência qualquer entre minhas coisas. Denunciou os descaminhos e os fez públicos, notórios, irreversíveis, acima de tudo. Salientou os sulcos da pele, a robustez das carnes, a inflexibilidade das juntas. Ser feliz revelou uma fotografia na qual a quase nada reconheço. Ser feliz foi recomeço de uma vida inacabada. Eu me tinha ali, conhecida e conformada, achando fresta em concreto por onde pudesse escapar meu lirismo – inútil e vencido. Mas era meu. Ser feliz apagou as fronteiras cultivadas, tornou feitos todos os desejos, as vontades mais longínquas, - de longe vejo tudo que eu era, todos que eram e, meu nada, era meu. Mas era meu. Ser feliz ouve até as preces não feitas, as súplicas atendidas – não deixa nada a desejar. Ser feliz trouxe o medo da morte.
Necka Ayala
17.08.2011
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