Vejo nos olhos dos que vejo, com os quais convivo, uma falta, uma ausência. Acima de tudo nos mais jovens. Acho que lhes foi tirada uma parte. Do berço. Da infância. Do crescimento. Eles precisam de muito, muito, de coisas muito fortes, quase insuportáveis, para sentir. Sentir.
No tempo que foi meu, havia máquinas e filmes. E era preciso esperar revelarem as fotos, para saber como tinham ficado. Havia espera, expectativa, surpresa. E como era bom ir buscar aquele envelope recheado de fotografias não-vistas. Isso permitia que se sentisse coisas...curiosidade, noção de tempo, desejo de ter acertado, fascínio! Se sentia. Agora é tudo fast, tudo anda em terabytes. As fotos já são programadas para dar certo. Não há espera nem surpresa, nem expectativa, nem fascínio. O tempo se chama up ou download e se mede pelo que mais responde. Pessoas são quadradinhos colecionados nas redes – quanto mais se tem, mais popular se é. É? Mesmo? Esses muitos quadradinhos gostam mesmo de quem somos? Se não fosse meus apegos, coisa que ainda não tratei, eu pegaria uma dessas redes e deletaria todos os quadradinhos relativos a pessoas que mal conheço. Deixaria somente os que tenho certeza de que me nutrem afeto real, sólido, constante. Passaria a ser impopular? Vejo nos olhos das meninas com as quais converso, essa falta. Ali, também, falto. Porque não sei como dizer a elas que o cara certo não é o da maior porrada. Não sei como dizer a elas que está tudo errado – que paixão não tem a ver com ficar contra a parede, mas render-se a alguém de modo que não haja nem paredes! Não sei como dizer ao mundo que amor não se trata de pegada forte, mas de sentimento arrebatador e definitivo, que amor vem pra ficar e durar pra sempre, num sempre que não é o que conhecem – sai de dentro e é um único instante, todo. Vejo nos olhos de quem vejo, uma ausência. Foi levada uma parte do que eram. A parte à qual cabia sentir.
adorei !!!! é exatamente o mesmo pensamento que tenho. saudades.... de um tempo não tão antigo assim.
ResponderExcluirgrande abraço.
Claudia ( Rio de Janeiro)