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6 de set. de 2011

In-Necka. Um dos primeiros posts, repostado.

06 de abril – Carta para Cíntia Moscovich

Eu ia começar explicando o motivo. Mas deves saber que nem sempre há motivos pra gente querer falar com alguém. Te vi ontem, dei uma visitada no teu blog agora há pouco, li a indignação do Coimbra a respeito das crianças de rua e bastou pra querer falar contigo. Eu escrevo recortadamente – não liga.

Jefferson.

Devia ser tipo 19h duma tarde qualquer. Tocou o porteiro eletrônico sem aviso prévio, o que eu detesto: detesto visita que não avisa que vem, a casa fora de ordem, fogão em pleno ofício, coisa assim. Mas atendi. Veio a voz dele: oi, tem alguma coisa pra comer? Pedi que esperasse, fui ao local onde aqui se guarda tudo que se pretende comer ainda, e desci. Um guri loiro de olho azul de uns 11 anos. Jefferson. Entreguei, dei tchau e subi. Dia seguinte, idem. E assim por meses. Acabei sabendo que ele estava fora de casa, fugido do namorado da mãe que batia descaradamente na cara linda dele. Ex-colegial, ex-família, ex-bairro e colegas. Não sou de fazer perguntas, mas quando ele quis falar, falou. Acabei por perceber que já havia rotina nisso: eu já conferia mais cedo, de manhã, se haveria o lanche do Jefferson. Se não tinha, saía pra buscar alguma coisa. Já comia eu também com hora certa, o que me fez muito bem, diga-se. Quando vi, num surto de TPM, estava agradecendo a Deus pelo filho-pronto que recebera, sem ter precisado gerar, esperar, chorar, adivinhar traços de família, rezar por perfeição física. Um filho sem as prováveis exigências de um, com hora para ver e hora de devolver pra vida. Perfeito! Minhas amigas já conheciam, já o viam na rua e diziam: ô Neca, vi o Jefferson hoje! Virou estação, consegui abrigo, moleton, meia grossa, depois bermudas, camisetas sem manga, virou o ano e ele vindo sempre, pontualmente a mesma hora. Nunca pediu dinheiro. Só comida. Fizemos um acordo que eu descia com o prato e o (já) copo de Nescau que eu nem tomo, e ele deixaria tudo sobre a caixa do correio. Quando a Ro subia, trazia tudo e eu lavava e deixava secando até o dia seguinte. Eis que um dia de outono do ano seguinte, toca o porteiro certinho na hora, e ele diz: ô tia, tu tens umas moedas pra me emprestar? E eu nem tinha. Busquei algumas nos bolsos dos casacos, peguei o lanche pronto e desci. Abro a porta e tá ele ali, cheio de sacolas do Zaffari penduradas, amarradas com tudo que eu tinha dado. Pronto pra viagem. Perguntei a ele qual era e ele contou que o padrasto estava descendo a Plínio atrás dele e que o mataria se o pegasse. Precisava fugir, pegar um ônibus pra tentar achar uma irmã mais velha sei-lá-eu-onde. Dei as moedas e me desculpei por não ter mais nada. Preocupada, perguntei se ele sabia o que estava fazendo, se voltaria, atordoada pelo sumiço do filho, assim, de soco. Ele perguntou: tia, posso te dar um abraço? E eu dei. Lógico. Ao pé do ouvido ele disse ainda: tia, eu nunca vou te esquecer. E correu.

Subi pra casa uma subida da vida ao inferno que nem deve ser tão longe. Chorei todas. Pedi a Deus que desse direção, caminho, abrisse portas e o levasse ao lugar que a ele talvez pertencesse. Mas nisso, de súbito, perguntei-me quem sou eu pra tanto? Eu que também não tenho nada, paradeiro, sindicato, turma, família, não sou de lugar algum e, respeitadas as proporções não tenho ainda meu lugar ao sol, to querendo o que? Eu que não sei até hoje ao que vim? Refleti muito e acabei por querer saber o meu lugar também, onde fica. Meu filho e eu, dois impertencentes.

Era uma noite daquelas em Porto para além do teto da Tok Stok. Negra. Sem estrelas. Peguei o violão e fiquei ali, tocando coisa alguma, olhando o céu. Veio a viagem do céu sem estrelas. E tentei imaginar o contrário: uma estrela sem céu para pousar. A impertencência. Parecia que quem tem alguma coisa, achou seu cantinho de céu para ficar. E quem não tem, é estrela sem céu. Eu, ele. Acabei compondo a música TODO que batiza o disco novo. E, enquanto compunha, enquanto perguntava, respondia. Responder era o pedaço de céu ao qual pertenço, talvez. Traduzir aquela coisa toda de filho adotivo, tentar falar sobre essa busca, colocar em canção o que havia sido pura devastação, talvez fosse, ao fim de tudo, o que vim fazer – a parte que me cabe deste latifúndio.

Muito antes de “adotar” o Jefferson, eu já tinha outros 03 mendigos de estimação. Um deles é um catador de papel com o sorriso mais lindo do mundo. Baixotinho, feliz. Ele me adora. Abana, manda beijos de longe e sempre espera lá embaixo quando peço pra ele esperar. Outro é o gritão: um cara que anda anda anda por essas ruas e pára. Senta no chão e grita, grita muito. Desesperador. Ele é um cara bonito também. Dia desses atravessei o medo e fui a ele. Ofereci 1 real e ele disse: moeda moeda moeda!! Perdi o medo e ele ficou com o real embora fosse papel. Esse anda sumido. O terceiro é um bebum amado que um dia estava aqui na parada da frente. Fui pegar o ônibus e ele estava ali deitadão na rua. Levei 1 pila pra ele e ele ficou gritando: valeu mamãe! Deus te ajude, mamãe. Apelidei ele de Meu Filho. Sigo dando pilas pra ele vez em quando. Ele costuma ficar na Poty, na volta do lotação, antes da Quintino. Sorri lindo também. E tem o Jair, tinha esquecido desse, que ficava na frente da Caixa da Quintino com a 24. Esse acompanhei a decadência e a levantada. Querido. Quando melhorou de vida, me chamou pra mostrar o carrinho de catar papel e disse todo contente: agora tenho trabalho.

Entendo o Coimbra e a indignação dele. Sinto o mesmo. A diferença é que hoje penso que no fim das contas, está tudo certo. Até esses que citei, de cujas vidas faço parte e que são parte da minha (alguns são mais presentes que alguns amigos), têm suas funções onde estão. Não fosse o Jefferson eu jamais acharia resposta para uma pergunta tão ancestral quanto aquela. Não fosse o Jair, talvez eu já não acreditasse mais na carta A Roda da Fortuna do Tarô. E o que seria de mim nas vindas pra casa, sem o sorriso do Meu Filho na volta do Parcão? Tenho relações com eles, reais. Eu, que sei o que é fome, sei quanto mais vale um pila pra uma bebedeira e o posterior alento do esquecimento, em vez do prato de comida que julgamos estar fazendo o melhor. Porque te afirmo: às vezes é melhor continuar não comendo, do que comer hoje e sentir a fome voltar com tudo amanhã. Às vezes é melhor simplesmente esquecer. Não julgo o que farão eles com o pila que dou, por isso. Não me pergunto mais o que fazem na rua porque não me compete. Convivo. Trocos sorrisos. Dou e recebo deles. Torço pelo bem que lhes cabe ter. Pelo meu. Somos todos a mesma coisa, muitas vezes, impertencentes, sem céu pra ficar. E tantas vezes sentimos isso vida afora...

Talvez seja por isso, também que eu não queira sair daqui, deste apartamento. Fizemos história, temos laços, raízes – o bairro e eu.

Ainda assim, te agradeço pela indicação: ter lido, me fez lembrar mais isso que vivi, revisitar essa parte inteira da qual não lembro sempre. Assim, encontro sem querer o motivo oculto que move e justifica todas as coisas. Obrigada, Cíntia Amada. Beijos nessa cara que eu adoro ver de novo e que também faz parte da minha história por essas bandas.

Necka.

A propósito: no ano seguinte, no dia do meu aniversário, o Jefferson bateu aqui e disse: tava com saudades. Agora ele vai e vem. Tal qual um filho.

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