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10 de out. de 2011

O Coco e o Fabiano

Descrevendo a coisa toda: tínhamos, no primeiro andar, um depósito onde manipulávamos 22 mil brindes. E três estandes no andar inferior para onde eles eram levados pelos carregadores, que eram 6. Num dado momento, perguntei a um dos carregadores, que já havia se perdido pelo caminho várias vezes, como se pronunciava o nome da empresa dele – oak. Ele me olhou sem entender direito. Apontei para a camiseta dele e disse: esse nome que está escrito aí, Fabiano, como se diz. Ele olhou pro próprio peito e disse: moça, eu não sei ler.

Meus olhos já cheios d`água, passaram a olhar mais de perto para ele. E a entender mais sobre ele.

- Fabiano, vem comigo aqui – vou te ensinar o caminho para não te perderes mais. Descemos. No final da escadaria, havia uma senhora vendendo água de Coco. Um carrinho verde, sempre parado no mesmo lugar.

- Olha, Fabiano, tá vendo o Coco? Presta atenção: tu páras quando chegares aqui. Olha pro Coco e para a escada. Viu? (ele acenou que sim) Então, daqui tu viras para o lado até enxergares aquele desenho ali, da moça com os cabelos vermelhos. E páras ali. Fomos. Paramos. Ele olhou o Coco, olhou pra mim, olhou pro desenho e tentou guardar aquilo tudo na cabeça. Dali, depois de meio convencido, mostrei o próximo passo: olha, Fabiano, tá vendo aquela foto daquela moça com os cabelos voando e aquelas luzes sobre ela? Sim, ele via! – é ali que tu tens de ir sempre. Escada, Coco, Desenho da mulher de cabelo vermelho, foto da outra mulher. Guardou?

Ele ia e vinha toda hora, cheio de brindes prontos para entregar no estande. Parava no fim da escada. Olhava o Coco e olhava a escada. Virava. Andava só até o desenho. Parava. Olhava o Coco, olhava o desenho e procurava por mim. Eu acenava que ele estava certo, indo bem. Aí ele andava até o destino. E voltava certinho pelo mesmo caminho.

Os outros carregadores me contaram que os colegas debochavam dele, chamavam o Fabiano de tonto, pateta, sem parafuso...essas delicadezas das quais serem humanos são capazes. Chamei de novo o meu novo ‘adotado’:

Fabiano, vem cá – presta atenção no que vou te dizer. E ele sério, me olhando. – Quando alguém zoar contigo, tu vais lembrar disso: tu és dez! Vai, repete! Tu és dez! E lembra que quem te acha dez é a tua chefe careca. Lembrou? Então me diz: o que que tu és? Ele pensava, coçava a cabeça, procurava lembrar e nada. Ficava repetindo...tipo...tipo, eu sou...e sorria lindo com cara de “não lembro”.

Antes de irmos embora, fui me despedir de todos. Arrumei um troco pra cada um e fui dar tchau. Quando chegou a vez dos últimos três, Sandro, Fabiano e Seu Antonio, agradeci pelo trabalho ótimo deles, pela parceria, pela companhia e disse que estávamos indo embora pra outro evento em Porto. Fabiano desatou a chorar, se abraçou em mim e dizia: não, não, cê não pode i...cê não vai não, cê é da hora! E chorava, chorava, agarrado em mim.

É disso que gosto nos eventos. Não gosto daquela gente toda circulando, gente de pompa e renome. Gente que vem com a passagem paga, hospedagem, diária de alimentação; passeiam pelos estandes recolhendo brindes, lanches e bebidas, todos ultra-formados, phds, catedráticos que não fazem nenhuma questão de ser delicados com as pessoas que trabalham conosco. Gente que reclama, cria caso, e é sempre amigo íntimo de alguém poderoso que pode acabar conosco. Não gosto do status disso. De fazer parte de uma “chefia”. Nem da forma como os superiores cobram serviço, depois de chegarem por último só para colocar defeito no que está feito há dias à custa do esforço dos menores. Mas gosto daqueles que carregam o peso de tudo nas costas, 12 horas a fio; das que limpam a sujeira deixada pelos outros, 12 horas a fio! Dos que asseguram os objetos dos outros, às vezes 24 horas a fio. Gosto dos que dirigem trazendo os equipamentos, que sorriem e dão bom dia, ficando ao lado desde antes até depois de nós virmos e sairmos. Eles não pedem nada! Não cobiçam brindes, nem recolhem lanches e presentes. Não negam sorrisos quando chegamos, nem abraços sinceros. Alguns não sabem ler nem contar, como o Fabiano. Outros têm mais problemas do que todos nós somados e, ainda assim, sorriem e abraçam forte. Uns são mais idosos, outros mais cansados, mas todos trabalham duro por uma diária que a gente gasta de táxi pra chegar ao evento. E quando partimos, todos, sem exceção, estão gratos pelo simples fato de terem sido tratados com respeito e carinho, dignidade e ternura. A pouca ternura que nos resta doar e que lhes é de direito. Quando saímos, indo embora, eles todos agradecem e dizem que nunca trabalharam tão felizes por estarem conosco. Saímos nós tendo ganhado muito, muito amor. Quando encontramos de novo um ou outro, sorriem mais largo ainda, porque de fato, gostaram da gente. E eu, mais feliz ainda por ter recebido amor de onde nunca imaginava que viria. É isso que me faz fazer eventos. Poder ligar, como ligo notas e acordes, palavras e fotografias, um coco, uma escada, um desenho, um caminho...

Obrigada, Amado Fabiano!

Um comentário:

Leio.