Quando voei pela primeira vez, ainda com algum medo daquilo, do tamanho do aço e do quanto ele subia, foi, ao mesmo tempo o maior susto e o maior deslumbre da vida. Eu não acreditava no que via pela janelinha do avião. O tamanho das coisas, das pessoas, das estradas lá abaixo. Não conseguia acreditar na imensidão da beleza de tanta nuvem ali perto, nas cores do sol lá de cima. Era uma emoção tamanha, que eu só agradecia a Deus pela chance de ver, de ter olhos e deles serem ainda capazes de ver e gravar na memória aquela cena. Lembro que desembarquei pensando: se isso é possível, tudo é.
Foi essa certeza que me fez abrir as algemas e sair. Se aquilo era possível, tudo era, tudo seria, tudo viria. E veio. Levou um tempo até soltar as amarras antigas e conhecidas, largar para trás as palavras gastas de um dicionário vencido, deixar irem as expectativas que nunca deram em nada, mas acalentavam o apego. Custou um preço me afastar das coisas queridas que tiveram de ir junto. Foi duro acordar num outro mundo, como se tivesse sido abduzida por mim mesma e aquele céu, despertando num outro canto novo e insuspeito. Mas fui. Porque o que era antes, não podia mais ser. Os muros do meu castelo, as coisas que construíra, o chão da minha sala, os silêncios enormes, as esperas infinitas, as dores e as lágrimas não me cabiam mais. Aquele céu me mostrou que sim, tudo é possível.
O que eu queria da vida, era que a vida estivesse viva. Que minhas mãos partilhassem alguma coisa boa, que distribuíssem por aí qualquer coisa de feliz, sei lá...eu achava que seria arte. Que talvez minha música ganhasse o mundo, feito filho que sai de casa e ganha as ruas, acha futuro, se faz na vida. Que talvez minhas palavras fossem ser lidas lá longe e, com isso, alcançasse pessoas, olhos, mãos que nunca veria. Hoje, passado um tempo necessário ao merecimento, enxergo os dias como enxerguei aquele céu. Sim, alcanço muitas mãos e olhos e distribuo coisas boas. Boas de ter, de receber, de provar. Compartilho sim daquilo que sempre acreditei. Não é minha música nem minhas palavras que vão até onde pessoas moram, pessoas que nunca verei. São gestos. E quanto mais gestos, mais tudo se multiplica, gera vida, vive. Hoje a vida não só vive intensa e pluralmente, como vai onde talvez minhas músicas não pudessem ir. Nossos nomes estão em preces de pessoas que talvez não vejamos de novo. Nosso trabalho é o trabalho de gente que nada tinha, nada recebia e, pior: gente que não acreditava mais. Nossos gestos abriram outros céus e tudo ficou de novo possível para mais gente – gente que a gente talvez não cruze mais no caminho. Sim, se aquilo era possível, tudo é. Agora tenho céus cada vez mais lindos cada vez que vôo. Revejo. Choro de novo às vezes, quando o avião se aproxima do Salgado Filho. E quando desembarco, sei que está tudo mais certo aqui embaixo porque podemos ofertar, doar, compartilhar, distribuir, trocar, somar, estender a mão, ouvir a quem precisa dizer como se sente. Sei que está tudo menos pior aqui embaixo, desde que aprendemos a ajudar a lavar os olhos dos outros, como lavamos os nossos. Afinal, aquele céu é de todo mundo.
Necka. 10.11.11
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Leio.