Saber é bom. Vivo buscando o que ainda não sei – o nome daquele diretor, a trilha daquele filme, as respostas de alguns que pensaram, a sabedoria dos que já viveram mais do que se imagina...; vivo procurando mais e mais informação e as guardo todas. Minha memória consegue levar consigo, tempos adiante, aquilo que viu, registrou, ouviu, presenciou. Gosto da razão e não discuto sua importância legítima. Mas ela não basta, saber não basta.
Sentir sim. Posso saber que cada ser humano sobre a terra tem seu tempo, precisa nascer, crescer, viver, declinar e partir. Posso entender, com a razão, que cada coisa viva consista em cumprir uma jornada finita. Sei sobre os sábios que estudaram vidas, que descrevem nossas experiências passadas, como ouço aos mentores, aos escritores, aos espiritualistas e aceito o que tenham a declarar sobre tanto. Mas saber tanto, não basta. Porque saber não paralisa a saudade que fica, não alivia a falta que faz a voz, o cheiro, a presença, o abraço daquele que não está mais, nunca mais estará perto.
Tenho perdido pessoas. Aos quase 48 anos, vejo que o tempo, implacável, transformou semblantes, tornou roucas vozes que eram limpas, tremeu membros que agora hesitam mover-se como moviam-se, forjou riscos sobre peles que já foram lisas, pintou fios de cabelos, levou esperanças embora, encurvou colunas que eram sólidas, emagreceu corpos que eram sãos, confundiu lembranças, tornou poucas as horas boas de alguns mais velhos; saber que tudo isso tem um propósito superior e que não me cabe partilhar dele, eu sei! Só que sigo sentindo o que sinto quando deparo com cada alteração que o tempo faz.
Questiono Deus, nessas horas. Por que Ele não poderia ter feito a todos nós, contínuos, sem envelhecimento, se fomos feitos, de fato, para aprender. Aprenderíamos numa mesma existência, continuamente. Passaríamos de etapas numa mesma vida, continuamente. Teríamos quem temos durante a jornada toda, ainda que fôssemos mudando um tanto menos, talvez uma célula por década vivida...não sei – deixo que Deus imagine como faria. Talvez começarmos velhos, como Chico Anísio um dia imaginou, e acabarmos jovens de novo e, dali, retornar. O que custo a aceitar, acho que nem aceito, é que encontros sagrados como o que tenho agora, possam, de repente, se desfazer na finitude de todas as coisas. Que o tempo mude, altere, separe o que levei a vida toda para encontrar. Não aceito que certas coisas únicas na vida, como isso, nós aqui e agora, tenham fim. Mesmo que me digam que seguirá depois, que já viemos assim de antes. Isso não basta. Saber não basta. Porque sinto a mais completa convicção de que achei quem eu merecia e esperava. Um presente dos céus, uma certeza, o todo da beleza e de um amor que redescubro enquanto vivo. Foi sentir que me guiou os passos até aqui, não foi saber. Sendo assim, queria seguir sentindo vida afora e que ela não estivesse nessa conta agora, mais dias de passado do que tenho de futuro. Sentir é o que move, elucida, cura, reintegra, alimenta, vale. Sentir justifica toda uma existência. E ainda que eu sinta a Deus, fato, não o entendo e não o sei como gostaria. Espero que nas asas sem fim de seus anjos, os que partem sobrevoem minhas perguntam e se riam delas, pensando...espera – um dia, entenderás sentindo!
Necka – bons sonhos, Rafael!
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Leio.