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5 de mar. de 2012

Sozinha


Às vezes solidão é mais do que não ter pessoas. Estamos sós numa multidão de números, passantes, errantes, transeuntes, senhas, pedintes...também. Sós nos arrependimentos. E talvez não haja nada mais só do que o arrependimento. É onde só nós sabemos o que se deu, a verdade inteira do que houve, a dimensão dos gestos que fizemos, a imensidão das palavras que usamos, a permanência infinita das consequências disso. Só nós sabemos no íntimo do fundo dos espelhos, quanto peso isso tem e como ocupa nossos ombros.
Mas somos sós, antes de tudo, naquilo que pensamos e sentimos. Porque ninguém mais no universo pensa ou sente como nós.
Minha solidão se trata disso. De pensar como penso, de imaginar como imagino, de vislumbrar coisas que ninguém mais vê. Para mim, meninos nas ruas são eu, num outro tempo, numa outra dimensão. E seus estômagos sentem o mesmo que o meu às 18h30 – pedem atenção. Para mim, se vão usar meu dinheiro para dar atenção ao estômago ou se vão comprar um brinquedo, se vão encher a cara, não me diz respeito. Porque às vezes como meu chocolate, às vezes coleciono e, em outras, gosto de olhar apenas para eles ali, numa viagem à uma infância que não tive. Minha solidão se trata de ver Cavalos-marinhos não como peixes, mas como figuras mágicas, encantadas de um planeta de toda leveza. São únicos. E quase tudo para mim acaba por ser único. Os nomes com os quais batizo as coisas que amo, as palavras que invento quando nenhuma basta...; o modo como sinto amor. É único. E meu. Tão meu que dói o tanto dessa propriedade. Sou só porque acredito num Deus bom, cúmplice dos erros que cometo. Acredito que São Judas Tadeu se ri das bobagens que digo a Ele, e chora comigo quando desespero. Acredito no Coelho da Páscoa. Só eu vejo o Sol como uma pessoa.  Só eu vejo a paixão como um todo, uma nudez completa, uma entrega que deveria ser única também. Minha solidão se trata de sentir-me só num outro mundo muito mais bonito e justificável do que este que compartilham meus semelhantes próximos. Às vezes não quero ver certas coisas...porque me defendo e me reservo o direito de poupar olhos cansados. Não quero ver coisas feias, ouvir gritos, assistir a acidentes, presenciar montagens de personagens ainda mais sós do que eu, porque não aceitam o que são. Ser só, agora, se resume a olhar para tudo que vivi e tentar entender que fui eu, sou eu e serei eu, somente eu, a pensar assim e a sentir o tanto que sinto, por tanto.

Necka Ayala. 05 de Março de 2012.

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