Ainda não sabes sobre a brevidade das coisas, mesmo as que parecem
levar tantas horas para passar, quando esperas e nada vem. Quando estás só e
ponteiros parecem parados, as noites imensas e, manhãs, simplesmente
não se abrem. Ainda não sabes como tudo isso é passageiro, ainda que te pareça
alongar-se e haver tempo de sobra para tudo que ainda não criaste em ti. Ainda
não conheces a fragilidade da pele, dos ossos; quantas coisas há em ti
indefensáveis, sobre as quais nada podes fazer – o quanto elas podem
surpreender-te ao falharem, deixarem-se cansar da vinda até aqui.
Ainda não forjaste vincos em tuas expressões todas. Nem sentiste o
ranger das partes que são tuas. Vês bem e nitidamente às cenas que desfilam
diante de teus olhos, sem duvidar do que enxergas, sem hesitar, sem incertezas,
como as que tenho. Ainda não conheces a incerteza maior, de que outro dia virá
e será inteiro, todo ele, vivido na íntegra e sem mais despedidas ou alardes.
Talvez por isso não entendas tudo, não me entendas toda.
A noite se abre agora. E faz frio. Neste silêncio ao qual abraço
em teu lugar, estão todas as coisas que não sentes e eu experimento a cada
movimento. A previsão do tempo, os temporais que se aproximam; o gelo da
madrugada, enquanto dormes e eu transito pela casa insone. A possível
turbulência, o retorno à casa e as mil lembranças, os incômodos do corpo, a
certeza da morte e quase nada poder fazer para entende-la, aceita-la, conviver
fisicamente com ela.
Faz pouco que tua vida começou e é tão linda...quisera eu
assisti-la assim, vida afora, mas a tua. Observar teu sono noite adentro. Zelar
pela hora sagrada em que despertas, sempre sorrindo para a vida, mesmo antes de
saber que vestes teu dia terá. Me cabe partilhar dos desígnios de Deus, assim,
da mesma forma, sem saber que véus os cobrirão. Se assistirei ao descortinar e
às revelações desse dia impreciso e, no entanto, definitivo. Único.
Irreversível. Como te disse uma vez: serás a última, serei a primeira. E tem
sido tão veloz o tempo que existe ao teu lado, e pouco...
Às vezes é preciso resignar-se apenas, para poder sorver de cada
dia, seu instante exato, este, aqui.
Dedicado a Flávio, também.
Necka. 28 de Setembro de 2012.
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