Quando
compus No Vento... era uma mescla de pedaços da minha história. E neles havia
um que falava sobre a ida de alguém sempre para mais longe, depois para um
pouco mais ainda, até ir, finalmente, para longe demais. Outro pedaço, falava
sobre não ter certeza, depois de tantos anos, se aquilo havia realmente
acontecido ou se era sonho, vestígio de sonho, lembrança dele. Outro pedaço
ainda, falava sobre a saudade que envelhece, por esperar demais...pelo tempo
implacável levar, também, os meios com os quais a gente saciava a saudade em
outros tempos. Falava, um outro, sobre o
silêncio que toda ausência tem. E como ela se faz presente! Sobre procurar e
não obter resposta, muitas vezes. Há ainda pedaço que fala sobre achar que, um
dia, o vento vira, muda tudo, traz de volta. E a gente fica ali, achando. Como
acha que às vezes já passou, se sente de novo liberto de algum modo, daquele
sentimento que ali habitava o mesmo cômodo. Acha. Sentir não dá luz a certezas.
E através do tempo, o grande Ensina-dor (nos dois sentidos), a gente entende
que as coisas queridas, as pessoas-tesouro, as cenas sagradas, os objetos de
estima, a juventude, as roupas favoritas, as fotografias, os cheiros, tudo
enfim, veio para passar por entre as nossas mãos, como passa o vento...o qual
não se pode pegar, nos restando sentir por alguns instantes dele, apenas a sua
breve presença. E é, a própria vida, assim. Quando compus No Vento, houve uma
espécie de escolha precisa de palavras que, ali, falavam sobre mim, nas muitas
entrelinhas. É a tua falta quem bate...porque
batia. Às vezes com força demais. E era também uma falta quem me tirava do chão
novamente. Ao fim de tudo, passava de novo, por entre as mãos, e seguia seu
rumo como se fosse uma rápida aparição, uma menção do destino ao que não é
mais.
Mas
o tempo também passou. E me ensinou, através da dor e do amadurecimento sábio,
que tudo, cada passo, cada dia, cada noite, cada palavra está no lugar certo na
hora certa. Nada, absolutamente nada está em desacordo com os planos do
Criador.
Hoje
acompanho a uma outra voz (de indescritível beleza) entoar No Vento como eu
jamais poderia. E escuto pessoas me contando sobre as suas histórias...
O
Criador tomou conta de tudo desde sempre. Cuidou de ensinar que, ao criarmos
uma canção que nos traduza, estamos compartilhando com ELE o dom da criação, de
modo que, ali, traduzamos também, sem saber, a todas as demais histórias,
alheias, avulsas, distantes.
Hoje
sei que a saudade que envelhece também pertence aos que ficaram diante dos que
se foram – Hebe, Osana, Luis, Celeste, Olinda, Benony, Maery...; que a falta
que bate, alcança outros rostos, outras perdas e pertence, também, a Ieda, um
ser humano ímpar. Sei que achar não é
de minha propriedade, mas de quem achou, esperançosamente, que alguma coisa
virasse e trouxesse alguém de volta. As palavras que (intuitivamente ou não
escolhi), são de todos agora. De cada dicionário, de cada coleção de cenas, de
cada coração que amou. De noivos, de namorados, de amigos que vivem longe,
daqueles que se calam e não respondem às nossas expectativas, viúvos, loucos,
todos! Pertence a própria Zizi, que tem mostrado em cena que tem, dentro dela,
alguma história só dela... algo sagrado que também passou por entre aquelas
mãos. No Vento agora pertence ao Keco Amado, também é cria do Jether que a
vestiu com novas notas, como é da Martinez, da Carminha, da Fefeu, da PP, da
Salem, da Eli, da Silvia, da Vanessa, da Minha Avó que, aos 88, pediu para lhe
explicarem a letra...; também é do Gui, da Isa, da Clarice, da Ângela, do Zé, do Flávio, do Marcelo, da Ana
Lonardi...porque todos que sentiram alguma coisa na vida, sentiram passar um
vento por entre seus dedos... fecharam depressa suas mãos, na tentativa de
segurar um pouquinho aquele instante e, finalmente entenderam que é assim,
apenas é...como a própria vida e sua finita fragilidade.
Necka. 01 de Outubro.
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