Fui
levada há pouco de volta. Revi cenas da cidade. De quando era muito menina e já
empunhava um violão. Já garimpava palavras, já apontava lápis, já colecionava
livros. Fui levada de volta ao tempo em que Olinda, Vó e Mãe, me perseguia nas
ruas da Floresta, Cristóvão Colombo, quando eu fugia para brincar de escalar o
Morro Ricaldone, jogar vôlei com as colegas ou fazer roda de violão atrás da
Igreja São Pedro. Depois vinha o castigo: sem violão por uma semana. Ela já
sabia o que estava tirando...! Amada. E dela veio tudo que sou agora. Sou
grata, Olinda, por cada castigo, pimenta na língua pós-palavrão, carinho
pós-pesadelo, água com açúcar para dormir em paz e terço, nas piores horas
diante da Imagem de Jesus Cristo.
Fui
levada de volta às ruas que percorri a pé, sempre com a música nos ouvidos e a
calma nos passos, indo buscar coisas no Mercado Público, renascido. Calma que
consistia em ouvir a fita basf inteira, dos dois lados, não por cautela ou
trânsito. E revi o azul absurdo ao fundo do topo dos prédios. O amarelado lindo
de outono que minha cidade tem. As folhas de plátano no chão do parcão. Os
ipês, os contornos. Moinhos de vento, recortando o ar...gente junto ao
meio-fio.
E às rodas de som, amigos deitados no chão da minha sala, enquanto eu tocava,
mostrava músicas novas, arranjava as vozes das antigas e partilhava do que
fazia meu mundo e nada mais.
Como
me custou e ainda custa, ir e voltar. Quando aquela placa azul começa a se
afastar aos poucos, enquanto ouço o ruído das turbinas no Salgado Filho. Sempre
vazo sal. Sempre! Decolo sempre com um aperto no peito sem descrição. E,
decolar, aqui, quer dizer o outro lado daquela montanha imensa. Quer dizer
querer a vida futura – menor do que já perfaz a soma da vida particípia. O peito também, a um mesmo tempo, acelera
pela certeza da nova aventura...ainda mais vindo pousar em Congonhas: aventura
na certa - o risco e sua oferenda...ele
se trata de revalorizar a própria vida. Para isso existem alguns medos.
Fui
levada de volta e pretendo continuar revisitando aquela cidade sempre que minha
alma pedir por atenção. Talvez seja a hora de eu colocar a mão sobre o rosto
dela, dar à minha alma um copo de água com açúcar, lembra-la de seguir com fé
em Cristo que nunca d`existe nem de mim, nem dela, nem dos que amo e tive de
deixar para trás. Cada lembrança agora, faz brilhar meu olho escuro, como qualquer
raio de sol que cruze a fresta. Cada memória, nome, parte, rua, cena...Igreja
São Pedro, Teatro São Pedro, 24 de Outubro, 26 de Agosto, tudo de mistura numa
mesclagem perfeita que só um Criador poderia arranjar de modo harmonioso assim –
Meu Compositor! Porto Alegre? : Lugar de onde Nunca Parti, que brilha brilha
brilha...
Necka.
02 de Outubro. Sou grata, Vera! Mesmo! Saudades de ti, Olinda! Minha Mãe.
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