Lembro
quando me deparei com aquela porta pela primeira vez. Era cedo. Ela chamava-se
Lourdes. Costumava subir ao andar, ao apartamento dela, ao lar; ela costumava
fazer nescau e um pão com manteiga sobre a qual colocava açúcar cristal e
ficava tão bom, que ainda hoje sinto falta daquele gosto – mas nunca mais quis
prova-lo, como se assim, resguardasse dela algo que só ela poderia me fazer
sentir. Ela dizia, docemente que, quanto mais a gente mexesse, mais o nescau
escureceria. E era verdade.
E é
mesmo como uma grande e desconhecida porta, a morte. Estamos todos indo vida
afora, desatentos à brevidade de tudo. Um dia, sem mais nem menos, deparamos
com ela. E um dos nossos a atravessa, indo ao encontro de um outro caminho. Mas
para nós, a porta desaparece logo. Dali, voltamos para o que era a vida até
então. E ela nunca mais será igual. É uma sensação de vazio, de vácuo no tempo, de
perdição. E uma certeza de que nada nunca mais será o mesmo. A vida, como a
conhecíamos, também nós não a teremos mais.
Nas próximas
vezes que subi ao andar, ao apartamento, não havia mais aquele lar. Os rostos
das pessoas que continuavam ali haviam adquirido um ar estranho, um
sombreamento qualquer habitava aqueles olhos todos. Uma ponta de amargura havia
sido impressa para sempre. Um sorriso cujo desenho fora alterado. A mesa estava
lá, mas não o nescau. Nem o pão, nem a doçura dela. A cena, sem a personagem
que a mantinha. O cenário sem grande parte da luz que o iluminava tão bem. Ao
descer, a sensação em mim era de uma imensa interrogação sem propósito.
Me
deparei com aquela porta um sem-número de vezes até aqui. Mais do que eu
poderia agora mensurar. A cada vez, um vazio ainda maior. Me faz falta o café
da Maery oferecido já no portão da casa; o cheiro bom de pó compacto na face da
Olinda; os palavrões engraçados da Vó Celeste; a letra linda do Luis; a chatice
boba do Rodrigo; o teatro do João; as risadas tímidas da Osana; a mão da Mosa e
o assovio do Roberto; a cara envergonhada do Vô Bi quando roubava na canastra; a
voz doce do Nando cantando comigo; o receio do Tio Lando em falar errado diante
da professora; aquela porta continua se abrindo hoje. Muita gente que nunca vi
passou por ela e muitos mais voltaram dali desassistidos de um visível,
tangível amor que a vida possa ter por eles. Conheço bem aquela porta. Da qual
não se volta nunca mais como se foi e depois da qual nós mesmos nunca mais
somos os mesmos.
Necka.
27 de Janeiro de 2013.
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