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27 de jan. de 2013

o Todo de Uma Porta.


Lembro quando me deparei com aquela porta pela primeira vez. Era cedo. Ela chamava-se Lourdes. Costumava subir ao andar, ao apartamento dela, ao lar; ela costumava fazer nescau e um pão com manteiga sobre a qual colocava açúcar cristal e ficava tão bom, que ainda hoje sinto falta daquele gosto – mas nunca mais quis prova-lo, como se assim, resguardasse dela algo que só ela poderia me fazer sentir. Ela dizia, docemente que, quanto mais a gente mexesse, mais o nescau escureceria. E era verdade.
E é mesmo como uma grande e desconhecida porta, a morte. Estamos todos indo vida afora, desatentos à brevidade de tudo. Um dia, sem mais nem menos, deparamos com ela. E um dos nossos a atravessa, indo ao encontro de um outro caminho. Mas para nós, a porta desaparece logo. Dali, voltamos para o que era a vida até então. E ela nunca mais será igual. É uma sensação de vazio, de vácuo no tempo, de perdição. E uma certeza de que nada nunca mais será o mesmo. A vida, como a conhecíamos, também nós não a teremos mais.
Nas próximas vezes que subi ao andar, ao apartamento, não havia mais aquele lar. Os rostos das pessoas que continuavam ali haviam adquirido um ar estranho, um sombreamento qualquer habitava aqueles olhos todos. Uma ponta de amargura havia sido impressa para sempre. Um sorriso cujo desenho fora alterado. A mesa estava lá, mas não o nescau. Nem o pão, nem a doçura dela. A cena, sem a personagem que a mantinha. O cenário sem grande parte da luz que o iluminava tão bem. Ao descer, a sensação em mim era de uma imensa interrogação sem propósito.
Me deparei com aquela porta um sem-número de vezes até aqui. Mais do que eu poderia agora mensurar. A cada vez, um vazio ainda maior. Me faz falta o café da Maery oferecido já no portão da casa; o cheiro bom de pó compacto na face da Olinda; os palavrões engraçados da Vó Celeste; a letra linda do Luis; a chatice boba do Rodrigo; o teatro do João; as risadas tímidas da Osana; a mão da Mosa e o assovio do Roberto; a cara envergonhada do Vô Bi quando roubava na canastra; a voz doce do Nando cantando comigo; o receio do Tio Lando em falar errado diante da professora; aquela porta continua se abrindo hoje. Muita gente que nunca vi passou por ela e muitos mais voltaram dali desassistidos de um visível, tangível amor que a vida possa ter por eles. Conheço bem aquela porta. Da qual não se volta nunca mais como se foi e depois da qual nós mesmos nunca mais somos os mesmos.

Necka. 27 de Janeiro de 2013.

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