Tem
dias em que sinto raiva. Uma raiva silenciosa, que pretende talvez,
silenciando, alcançar mais inferência. E quanto mais chego à conclusões, mais
ela se auto-confirma, se justifica. Concluo que se tivesse Morro não teria
Face. Concluo que tenho andado, vida adentro, ruas afora, de lábios dados e sem
beijos. E quanto mais concluo, mais irado e sem amor fica meu peito. Raiva por
ver julgados meus desabafos. Como podem julgar meus desabafos? Tomarem-me como definitiva
quando apenas fico revolta, como águas, revoltas, como mar mexido, revolta? Afinal,
viver não é expor-se? Estamos todos expostos, por mais que alguns julguem
conseguir esconder-se atrás da inatividade e da covarde ausência. Ando sem
paciência para essa longevidade do ócio. Para a falta de explosão de algumas
coisas. Ando sem tolerância para aqueles que toleram a tudo sem gritos, sem
bandeiras, sem armas. Me desencanto com uma facilidade maior do que a que tinha
para encantar-me. Me desapego mais hoje em dia. E me sinto melhor sozinha
quando anoitece. Eu e minha raiva, podendo estar a sós finalmente. A ironia das
coisas – quando me ensinaram a deixar ir, a abrir asas, a perder, não lembraram
simplesmente, o quanto ensinaram: que um dia talvez eu os deixasse ir, abrisse
asas, os perdesse também. Hoje me faz falta aquele que, embora pense e sinta de
outro modo, consegue andar comigo com opiniões dadas, feito mãos. Aquele que
não cria caso, não faz das minhas vontades, instrumentos de auto-flagelo.
Aquele que ignora minha presença porque tem vida própria e não se ocupa de
escanear o que seja eu. Hoje vivo de observar o crescimento dos galhos na
varanda...pois corpos não valem tanto assim, nem olhares, nem mãos. Cansei de
contemplar àquilo que não me foi destinado de fato. Cansei de tentar querer e
continuar querendo quando não querem que eu queira. De discordar e de ouvir
palavras duras de bocas belas. Tenho preferido a fealdade legítima – cansei da
beleza fátua, vazia, inconsistente. Preciso de consistência. E a raiva tem sido
mais consistente que o resto, que a promessa de amor, sempre ralinha. Sim,
escrever tem muito de vingança. De poder fazer alguma coisa contra aquilo que
nos fere, nos insulta, nos ataca, nos rouba coisas. Compartilho contigo a
simpatia cúmplice por Quixote. Tenho um de madeira, lindo! Madeira é
consistente. E odeio quando me tiram as ilusões. Quando isso acontece, te
visito e te leio. Me identifico e quase passa essa raiva, essa sensação de para
que tudo isso?
Para DALAI.
Para DALAI.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Leio.