Admito
que possa haver e há os que não me entendam totalmente. Meu apego bairrista,
minhas lembranças caras, meus legados e resquícios, sotaque e tradição. Tenho
mais de 48 anos. Fui nascida, criada e crescida ali, naquelas paragens,
naquelas ruas cujos finais de tarde douram o cinza. Percorri com meus pés às
vezes cansados da própria insistência, os caminhos repletos de folhas de
plátano – e eram elas que me davam esperança, entendimento...os ciclos, as
estações e a impermanência de todas as coisas, incluindo as tristes. Ali vi meu
pai tocar de tudo um muito; meu mestre desenhar para mim os primeiros acordes;
ali, minha Olinda dizia: não precisas dizer que me amas: apenas traz um pacote
de café que diminua meu fardo, e saberei do teu amor. E eu aprendi que amor se
exerce mais do que se pronuncia. Ali senti a ancestral vontade de vir à vida e
a urgente necessidade de fazer dela algo de bom. Na Cristóvão nasceu a primeira
canção e entendi que aquilo seria o fio condutor do resto todo que viria.
Também foi lá que a Igreja São Pedro pôs luz ao que eu já acreditava, através
do Zé Inácio – antes de um padre, uma grande amigo. Minhas bandas, meus parceiros
de som, meus leitores, meus compradores de caixas que guardam ainda suas coisas
queridas nelas. Wilson, Warley, Olinda, Walmir, Celeste, Maery, Luiz, Benony,
Rodrigo, Nando, Rafael, Dona Lourdes, tanta gente vi partir – e conheci as
profundezas da terra amada, quando ela se verte em leito último. Conheci os
palcos, conheci as fomes; as vitórias, as perdas irreparáveis. Conheci as
certezas e os medos. Acabei não curtindo Natais pelas muitas lembranças
não-boas sobre eles. E a amar a Páscoa, quando o ar de Porto Alegre finalmente
se aminuana. Minha terra é mais que minha terra: é onde está tudo que plantei e
vi crescer. Que reguei e acompanhei quando floriu. Hoje, quando revisito, posso
colher frutos e me considerar aquela para a qual milagres acontecem: o lugar de
onde nunca parti, também não partiu de mim. Vou e lá estão meus frutos maduros,
meus amigos, meus familiares, minhas ruas, o dourado da luz do fim da tarde e,
em cada coisa, estou eu.
Necka.
17 de Dezembro de 2012.
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