Não
sei se a vida sem Música seria um erro. Não acho que a vida erre. No entanto,
sem a Música, talvez nós errássemos mais.
Uma vez que ela nos ponha para dançar, nos acalme, nos emocione, nos
envolva, nos transporte, nos ligue uns aos demais, talvez sem ela a gente
acertasse menos. Mas a vida teria outro jeito de ser vida e, ainda assim, seria
ela uma bênção – talvez silenciosa ou repleta de sons também mágicos que nos
permitissem alguma elevação...sei lá.
Sei
que hoje, recebendo cumprimentos de pessoas que ouvem à Música que faço, fiquei
pensando no tanto de gratidão que sinto pelo Criador-Mor ter me escolhido para
esse ofício. Em como devem ser gratos os que cantam, por existirem os que
ouvem. E gratos os que tocam, por existirem os que saem de casa para aplaudir.
E nós que fazemos canções, gratos por fazermos e por existirem vozes que as
cantam. Como sou grata pelo que fabrica cada corda, cada instrumento que
enfeita a sala e dá sentido às minhas mãos. Pelos que vieram antes de mim,
preparando o caminho mais lapidado que trilhamos todos agora. Mais grata ainda,
pelos que queriam muito ter o dom, o ouvido, a agilidade, o entendimento sobre
a Música e não têm – e que, ainda assim, se sentem felizes por ouvirem dons
alheios cheios de alegria.
Também
não sei se concordo com essa coisa de ter de lutar muito, com unhas e dentes
pelo respeito remunerado. Me sinto tão profundamente feliz em fazer o que faço,
que creio haver modos mais delicados de dizer que também somos trabalhadores,
profissionais. Sim, temos de sobreviver e honrar compromissos. E, enquanto
estamos ali, criando, compondo, cantando, tocando, também estamos em contato
com o Universo maior e seus desígnios. Estamos tocando outras almas irmãs. E
isso é mais lindo do que qualquer valor possa traduzir em números. Sim, é
justo. Mas, uma vez que nos sintamos artistas, peçamos a parte que nos cabe
desse latifúndio com a delicadeza da arte, com gentileza e serenidade. O que
precisamos é que todos pensem diferente, aos poucos: que, aos poucos, cada um
se dê conta da importância da arte em sua vida e, depois, avalie o quanto tê-la
à disposição, vale. Por hora, prefiro que ouçam as canções que passaram por
minhas mãos, foram passear nas vozes que as cantam, as sintam, as tomem para
si. Se depois houver algum sustento nisso, serei mais grata ainda e mais feliz;
estarei honrada em cumprir com meus compromissos e certa de que, aos poucos,
toda nota se afina, toda palavra se encaixa e todo coração bom, se abre. Feliz Dia
do Músico, para todos os que OUVEM aos Músicos.
Necka.
(De João Manoel Oliveira para Necka Ayala)
PARA Necka Ayala (no dia do músico)
A grande explosão do Big Bang. Os primatas e seus grunhidos. O caminhar pesado do tiranossauro. O ritmo novo de cada chuva. O roçar das peles que se amam. O trovão! O gorjeio do sabiá. O grave e o contralto. O vazamento do cano. Os tão distintos quanto penosos timbres da produção industrial. O vento e suas formas sincopadas. A mão espalmada sobre o couro esticado. A reza que é o batuque. Chopin, Beethoven, Mozart e Bach. Os pianos, ah, os pianos... As mínimas. E as harpas, os clarins e os tamborins. A pancada do metal. O tilintar dos talheres. O gole de café. O quebrar do cristal. Gismonti, Hermeto, Piazola. Um pinho. O estalar dos gravetos. O choro da lenha. O silêncio da lua. O andamento das ondas. O cricrizar do grilo. O arrulho da pompa. O mugido. O grito de dor. E o de prazer. Os ais. Os uis. O zoom. O relincho. O voo do pássaro de metal. O zumbido das asas. O turbilhão da cachoeira. O minimalismo da goteira. A melodia. O Melodia. A voz de Elis, Fátima, Nana e Necka. O miado, o trinado, o agudo. Zizi, Ná, Ella e Billy. Steve, Bob, Ray e Louis. Chico, Caetano e Gil. O falsete de Milton. O ninar de João. O berro de Osvaldo. As teclas, todas as teclas. Os botões. As cordas. Os acordes. As notas. As composições. Vinhetas, jingles, bordões. Os semitons. As marchas, os hinos, as cirandas e as louvações. Até o rap, até o hip. A harmonia. O samba da minha terra. O xote, a seresta e o tango. O blue, o rock e o reggae. O ritmo, a cadência, o suingue. O fox e a salsa. O merengue. A rumba. O bumbo. A bomba.
E as palmas que bato para todos os que já descobriram que a vida é música. E as palmas que bato para todos os que fazem música. E para todos os que ouvem música, espalham música, são música.
Obrigado, música! Obrigado, músico!
Obrigado, Necka, por me dar a música.
(De João Manoel Oliveira para Necka Ayala)
PARA Necka Ayala (no dia do músico)
A grande explosão do Big Bang. Os primatas e seus grunhidos. O caminhar pesado do tiranossauro. O ritmo novo de cada chuva. O roçar das peles que se amam. O trovão! O gorjeio do sabiá. O grave e o contralto. O vazamento do cano. Os tão distintos quanto penosos timbres da produção industrial. O vento e suas formas sincopadas. A mão espalmada sobre o couro esticado. A reza que é o batuque. Chopin, Beethoven, Mozart e Bach. Os pianos, ah, os pianos... As mínimas. E as harpas, os clarins e os tamborins. A pancada do metal. O tilintar dos talheres. O gole de café. O quebrar do cristal. Gismonti, Hermeto, Piazola. Um pinho. O estalar dos gravetos. O choro da lenha. O silêncio da lua. O andamento das ondas. O cricrizar do grilo. O arrulho da pompa. O mugido. O grito de dor. E o de prazer. Os ais. Os uis. O zoom. O relincho. O voo do pássaro de metal. O zumbido das asas. O turbilhão da cachoeira. O minimalismo da goteira. A melodia. O Melodia. A voz de Elis, Fátima, Nana e Necka. O miado, o trinado, o agudo. Zizi, Ná, Ella e Billy. Steve, Bob, Ray e Louis. Chico, Caetano e Gil. O falsete de Milton. O ninar de João. O berro de Osvaldo. As teclas, todas as teclas. Os botões. As cordas. Os acordes. As notas. As composições. Vinhetas, jingles, bordões. Os semitons. As marchas, os hinos, as cirandas e as louvações. Até o rap, até o hip. A harmonia. O samba da minha terra. O xote, a seresta e o tango. O blue, o rock e o reggae. O ritmo, a cadência, o suingue. O fox e a salsa. O merengue. A rumba. O bumbo. A bomba.
E as palmas que bato para todos os que já descobriram que a vida é música. E as palmas que bato para todos os que fazem música. E para todos os que ouvem música, espalham música, são música.
Obrigado, música! Obrigado, músico!
Obrigado, Necka, por me dar a música.
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Leio.