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26 de fev. de 2013

Gênese


Os meninos ainda não sabem como as pipas gostam de pairar por sobre muros, varandas e jardins. Ainda não sabem que elas temem fios, eletricidade e cabeças de meninos grandes. Ficam apenas atentos ao que podem seus dedos, cultivando habilidades durante tardes sem fim. As senhoras ainda não sabem como podem ser belos os sorrisos dos pedintes e doces os seus bons dias. Andam apressadas em direção aos shoppings e às igrejas, bem vestidas e cheirosas para si mesmas. Os homens importantes ainda não sabem que as janelas fechadas impedem as brisas, o alívio breve dos dias piores. Ajeitam gravatas e lustram sapatos enquanto esperam mover-se o trânsito, o sinal nunca pontual. Não sabem da cena refletida nas lentes de seus óculos. Não viram o céu que se espelha sobre o teto do carro. E as meninas não sabem que suas bonecas avisam logo cedo: não se aprisione, a vida pode ser mais do que uma espera eterna. Se orgulham de coleções e modelos, como se fossem bonecas, capazes de moldar espelhos. As meninas não sabem quantos espaços terão seus futuros, quantas casas chamarão de suas, decoradas, nem quantas vezes isso se repetirá; desconhecem que amarão mais vezes do que esperam, e serão amores diversos por gentes que não adivinham. Os meninos, as senhoras, os meninos, os homens não descobriram ainda como olhar pipas, caçar sorrisos no caminho, aliviar pesos, sonhar mais vezes. O mundo, na verdade, ainda nem começou.

Necka

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