Os
meninos ainda não sabem como as pipas gostam de pairar por sobre muros,
varandas e jardins. Ainda não sabem que elas temem fios, eletricidade e cabeças
de meninos grandes. Ficam apenas atentos ao que podem seus dedos, cultivando
habilidades durante tardes sem fim. As senhoras ainda não sabem como podem ser
belos os sorrisos dos pedintes e doces os seus bons dias. Andam apressadas em
direção aos shoppings e às igrejas, bem vestidas e cheirosas para si mesmas. Os
homens importantes ainda não sabem que as janelas fechadas impedem as brisas, o
alívio breve dos dias piores. Ajeitam gravatas e lustram sapatos enquanto
esperam mover-se o trânsito, o sinal nunca pontual. Não sabem da cena refletida
nas lentes de seus óculos. Não viram o céu que se espelha sobre o teto do
carro. E as meninas não sabem que suas bonecas avisam logo cedo: não se
aprisione, a vida pode ser mais do que uma espera eterna. Se orgulham de
coleções e modelos, como se fossem bonecas, capazes de moldar espelhos. As
meninas não sabem quantos espaços terão seus futuros, quantas casas chamarão de
suas, decoradas, nem quantas vezes isso se repetirá; desconhecem que amarão
mais vezes do que esperam, e serão amores diversos por gentes que não
adivinham. Os meninos, as senhoras, os meninos, os homens não descobriram ainda
como olhar pipas, caçar sorrisos no caminho, aliviar pesos, sonhar mais vezes.
O mundo, na verdade, ainda nem começou.
Necka
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