Por
alguns trechos ainda deste longo caminho, vim segurando à mão que soltaste de
mim. Quis mantê-la a postos, pronta para qualquer súbito rompante teu de
sentimento, como se fosse aquele último suspiro forte e inesperado antes da
morte. Tentei mantê-la aquecida às custas do sol que reincidia a despeito do
breu que me entornava dentro, tua ausência decidida e irredutível. Procurei
sustentar a leveza da pele, a textura de pétala que descrevias dela. E ainda
que o caminho fosse a cada dia mais escarpado, mais ásperas as pedras nas quais
se dependuravam mão e esperanças, creio ter conseguido manter réstias de vida,
fios finos como teus cabelos que já não tocava mais há muito. O tempo e o frio
da tua mão, esticaram por demais a corda. Olhava dali e via que seguravas
outras coisas, muitas...malas, objetos, figurinos, pesos alheios que foste
carregar. E minha mão aguardava às voltas, esperando quentes, querendo que
voltasses querendo aquecer nela, à tua. Afinal, julgara eu, para isso tinham
sido feitas as mãos, as nossas. Para comungarem da celestialidade do encontro.
Para darem de beber e de comer aos desejos mais sublimes uns dos outros quando
nos encontramos em partilha. Para a feitura da felicidade breve e diária,
nascedoura de todo sentimento bom e plural. Voltaste muitas vezes de lá. E a
nada mais querias senão seguir soltando mais e mais coisas. Querias mais frios,
mais malas, mais paragens, solidão, transitoriedade. Teu amor provisório
encontrava o meu definitivo. Um visitante diante de um hospedeiro. Agora que te
assustam as cenas de futuro às quais não previste ao soltares a tudo, hesitas.
Olhas a mão ainda quente e quase consegues querer ser, uma vez mais, um pouco
feliz e aquecida. Mas o tempo fez com que a minha mão olhasse para o lado por
um instante e contemplasse à liberdade do que sou. E ela me pareceu ter olhos
mais azuis que os teus – olhos que querem ficar para sempre.
Necka
Ayala. 25/09/2013
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