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25 de set. de 2013

Bens

Deixa-me as borboletas – não as queres de todo coração. Ao fim de tudo entendo que a nada queres de todo coração. Deixa-me, sobretudo, as cor de laranja que pairam às vezes sobre a varanda. Deixa-me os dias 29 em todos os calendários, marcados. E o caderno negro onde deixavas escritos teus quereres diários. Não os tens mais de todo coração. Deixa-me a alegria dele, do pequeno infante esverdeado que me chama, me quer perto, brinca e se contenta e se aquieta quando pousa leve sobre meu ombro esquerdo. Ele aprecia ao som ritmado do meu peito sempre incompleto. Não o amas de todo coração como eu. Ao fim de tudo percebo que a nada amas de todo. Deixa-me as plantas da casa, as flores que virão um dia, as velas e as fotografias – nem as verás na rotina ausente que impuseste a ti. Já não as vês há muito tempo. Entras, trocas as coisas que já foram pelas que irão contigo na próxima aventura rumo ao desconhecido. Então deixa-me também, se não te fizer falta, as preces que eu escondia em meio às tuas roupas, para achares depois – quando estivesses diante do desconhecido. Elas me são caras e preciso delas de todo coração. As creio, por isso velo por mim agora. Restou-me velar por mim em reverência. Prantear ao que findou, antecipando a partida cedo demais, demais... É preciso imolar a esse cordeiro que sacrificaste. Pedir que volte à natureza de onde veio em paz e implorar perdão ao Criador por tamanha judiaria. Deixa-me a sós com minhas recordações que me são raras. Não as aprecias de todo coração. Tens olhos passageiros. E te desfazes de tudo que já te fez feliz. Entendo. Como te entendo! Apenas preciso continuar leal ao que me encanta mais que os olhos. Preciso sentir porque sentir justifica estar viva ainda, há tanto tempo! Não quero ser passageira de mim mesma – deixa-me sentir até o insuportável momento em que a porta se abrir de novo e tudo passar....

Necka Ayala

25/09/2013

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