Como
água enche o copo e o justifica. Como luz enche a sala e a torna outra,
retratando cores em tonalidades muitas. Como a recordação enche a alma com o
poder de viajar no tempo. E a música enche de sentido a tudo. É assim! Todo
coração preenchido pulsa novamente repleto de entusiasmo. E é a presença do
outro que enche um coração vazio. E a caridade. O nome do amado, a menção de
sua presença; os nomes dos irmãos que necessitam amparo, pão e alguma
felicidade ainda que breve. Valores podem encher bolsos mas não aquecem ao
peito às noites frias e vastas. Viagens enchem os olhos e os álbuns com
fotografias. Amigos enchem as horas e as consomem todas em boas companhias. Porém,
somente o exercício de amar e de saber-se amado preenche teu peito. E é como o
beijo que preenche os lábios, que os colore em tons de vida. E é com o abraço
que preenche os braços, as mãos alisando as costas do outro, a cabeça tua
contra um peito que te espera e quer. E
é como o teu sorriso brando ofertado àquela que, na calçada, entregue ao
abandono, embala crianças anônimas – teu sorriso enche de esperança a ela, a
eles que, de repente, tornam-se alguém novamente visível. É o amor que preenche
de novidade àquele que carrega fardos às tuas ordens, quando lembras seu nome e
sorris ao revê-lo. E de volta, quando ele sorri, preenche o teu. Um coração
vazio, como o descreveste, é um coração que quer chamar mas não há nome. Um que
quer entregar-se e perdeu o mapa doutro peito. São teus lábios esquecidos de si
mesmos que pedem que os regues, os leves ao sol, devolvendo-lhes o sabor pleno
daquela gota sublime do encontro! São teus braços que querem entornar a alguém
que os espere. Queres querer de volta
àquilo que certa vez te encheu de futuro, seduziu tuas pernas para novos rumos,
abriu tuas asas para novos trechos. Queres de volta o coração encantado e
encantador, tanto taça quanto gelo. Para tanto, bastaria que tivesses
apreendido todas as faces que tens e, em cada uma, forjasses até saber-lhes o
máximo. E que antes de tudo, antes de todos, fosses cúmplice da tua felicidade,
leal ao que te fascinava, sementeira e jardineira das coisas que querias ver
brotarem agora em teus domínios. Não perdeste ao nome do amado – paraste de
pronunciar ao teu junto dele, perto, ao lado dele. E o tempo tratou de ir calando
a pouca voz que tinhas enchendo esse teu peito estreitado de silêncio e de
vazio.
Necka Ayala
26/09/2013
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