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12 de dez. de 2008

Retiro

Desde então tem sido assim. Desde que vi pela primeira vez. Um curto retrospecto me deu a noção clara da coisa toda. Mas fazê-lo, não corrigiu o traçado. Não alongou o espaço, não estendeu o tempo. Curto. Refiz o rumo de trás para a frente. Nada. Não há em mim nenhuma condição de entendimento. Nenhuma luz me vem, nenhum ‘insight’. Não deduzo ainda, não concluo. Havia uma doçura na ponta dos dedos. Elas corriam leves e macias pelas cordas de aço, finas, dedilhadas com tanta facilidade que parecia milagre tardio. Agora parece que ao tocar as mesmas cordas, são fios afiados de facas recém compradas luzindo o brilho do novo. Alguma coisa muito grave me foi tirada de súbito. Decepada uma parte qualquer da alma que eu tinha e que sorria fácil. Minha fé de da manhã, de acender velas, resiste, mas a cada dia que passa, atrasa mais seu exercício. Parece que amputaram um pedaço meu ao qual eu tinha como único; creio que estava dormindo anestesiada – não senti o corte. Mas ele aconteceu. E quem empunhou a lâmina, o fez sabendo o que fazia, pois foi de uma precisão cirúrgica. Quem o fez o fez com palavras de amor ditas nos lábios e negadas nas mãos. E não poupou nada, nem trouxe depois do talho, o bálsamo, o curativo ou a mera explicação.
É a hora do ‘exorcismo’. Da visão inteira daquilo que me fere. Da sensação de injustiça profunda e testemunhada por Deus Nosso Senhor que há de tornar em fato, meu mais caro pedido a Ele. E é nessa hora, precisamente, que se deve, antes de tudo, fazer o bem. Neutralizar as forças contrárias, obscuras, duvidosas, falsas, com luz pura! Luz inteira. Hora de buscar mais ao fundo, mais ainda, talvez cavando o fundo do oceano ainda, mais adentro, para encontrar aquilo que de mais essencial houver restado. Uma compaixão absurda, uma decência de caráter, uma fidelidade a si mesmo que possa, imbuída de toda luz que se tem, distribuir o bem. Se for centelha, torná-la chama acesa e alimentá-la. Pousar mais lenha nessa lareira, lenha de escombros, para transmutar essa energia. É a hora em que a ancestral pergunta a Deus, “por que me abandonaste”, precisa tornar-se uma ida a Ele, na qual se diz: “eu sei que não me abandonaste, e toda a dor do mundo me faz vir recorrer justo a Ti”. É a hora em que lágrima por lágrima, dor por dor, precisam ser usadas para a lavagem da alma, para um inspirar de tanto oxigênio, que nos entonteça, até a luz entrar de volta, plena. É preciso inverter eternamente as polaridades. Para aquele que nos inveja, um presente, já que ele deve estar precisando muito ou há muito tempo não ganha nada. Para aquele que nos machuca, curativos para a dor dele: pois ela deve estar doendo tanto, que cause necessidade de ferir alguém. Para aquele que nos abandona, um adeus grato pelo que representou, mas um adeus consistente de fato, para que ele possa realmente arcar com sua escolha.
Quando esses períodos de anti-luz me tomam como alvo, desavisada, num primeiro momento é inevitável que me atinjam. Mas logo me retiro. Para algum lugar onde não possam me ver. Me retiro às vezes para dentro de uma Igreja. Outras, para dentro da música. Desta vez, até a música me desarma, me põe vulnerável. Iria ver Lenine hoje se fosse outro momento. Não posso ir, pois vê-lo hoje me faria desabar e não posso. Ele foi soberano nesta casa desde que ouvi a primeira vez “A Gandaia das Ondas”, em frente ao mar de Bombinhas. E tenho por ele um carinho imenso! Mas não poderia estar lá hoje à noite. E isso também vai doer, porém menos. Como não poderei ouvir muita coisa por muito tempo. Silêncio é tudo agora. Para que o bem se refaça dentro de mim, possível. Não quero guardar essas sensações comigo. Quero que se transformem o quanto antes e se dissipem. Que o vento leve, o mesmo vento de Arqui-Teto. Vento Redentor.

12.12.08

2 comentários:

  1. Linda...agora entendi seu silêncio...fica com Deus e com mtaa LUZ no coração!!
    Beijosssssssssssssss
    Loló

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  2. Amada... Depois de ler "isso", apenas uma vontade.. te abraçar forte (aquele, de tudo vai ficar bem), sentar com você na sacada, um free azul e uma troca de olhares que dispensa palavras.
    Amo tu. Muito.
    Beijo da, sempre tua, loira

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Leio.