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22 de abr. de 2009

In-coerência

“Favor não me dizer ‘eu te amo’, vá que eu acredite?”

Sempre lembro disso quando me desaponto, quando deparo com a incoerência. Quando ouço algo que me vem, logo depois, em ato contrário. Quando espero pelo que disseram que me trariam, quando conto com um calor que já viria, se as palavras tivessem mesmo lhe antecedido. Sempre lembro disso quando lembro da pureza que eu tinha em acreditar – eu cria mais. Eu podia. Quando meus olhos tinham mais esperanças que cansaços, quando meus ouvidos tinham a pele jovem que deixava passar sons mais nítidos, quando meu coração ainda não tremia à simples menção das poucas coisas que ainda se tem a perder. Eu acreditei tantas vezes quantas me disseram. E esperei tantas vezes quanto me deixaram à espera. E confiei tantas quantas foram as vezes em que pensei ter visto uma verdade. Eu conseguia! Agora tenho apego à gentileza dos silêncios, protetores...me abraço à sapiência da maturidade, que observa e já não tem mais por que declarar a nada, quando já sabe que ninguém ensina nada a ninguém, nem vão ouvi-la. Me conforto nos braços quentes e sem bagagens das certezas – eu disse menos do que fiz. Sempre soube que só temos a dar, palavras. Que todas as outras coisas são para ser partilhadas. Só damos, de fato, palavras. E é tudo que temos para dar. Me reconheço agora, no reflexo claro que vejo no espelho, sabendo que cada traço me causa orgulho, pelas palavras que escolhi para dar, e pelos gestos que vieram depois, a serem comungados, em paz. Tantas vezes repeti, viu? Porque coisas eram como eu as havia dito que seriam. E isso é alento para quando deparo com o que me desaponta. Quando espero pelo me que trariam e não vem, simplesmente não vem, como se esperar já não fosse áspero o bastante. Meu sorriso ainda guarda um traço qualquer de leveza, resguardado, que passou incólume por toda espera inútil. E ele vem de um tempo em que quase não havia palavras no meu entorno. Eu não ouvia. Naquele tempo, minha alma era mais minha e tratava de se ocupar em descobrir acordes, criar melodias, entoar cântigos, fechada em seu espaço, envolta num mundo melhor que este, da arte e da plena liberdade de ainda não amar ninguém. Lá atrás, seria simples acreditar mais nas palavras, mas elas ainda não eram tão necessárias. Hoje me sinto como quem assiste a uma demonstração impressionante de Deus, quando Deus dessaruma nuvens e as joga de outro jeito ainda melhor, e pergunta a Ele: sim, e pra quê tudo isso se tu não ouves nossas palavras, nem as que elogiam teus feitos, nem as que te pedem: me ajuda! Para quê tantas nuvens num céu se a rudeza do solo nos cegou a esperança? Deus não fala nada, para poder parecer coerente. Para que creiamos na existência disso e continuemos, as esperas...

Necka Ayala. 22.04.09

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