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20 de jul. de 2009

Mundo Delirante

“Mundo delirante,
Sou teu habitante
O mais frágil vôo – asas, colibri...
Mundo delirante,
Sou teu prisioneiro,
Vero cativeiro, ai de mim...!”
(Mundo Delirante, Suely Costa)


Minhas mãos não possuem a noção do que podem levar consigo. Não medem distâncias, não sabem do tempo, não lembram quem foram, quantos afagos passaram por elas, quantos não chegaram a vingar. Elas querem ser apenas mãos, somente elas o que são. E nada as basta, por mais que toquem, que explorem, que acariciem, que dedilhem, que desenhem, que refaçam – nada basta a elas, também. É como se nunca saciassem a fome do tato.
Meus olhos não têm reservas quanto ao que querem enxergar. Não mensuram paisagem, não entendem o tamanho dos espaços, nem sabem dos cansaços quando as noites vêm. Eles querem decorar cada canto, explorar cada centímetro, se deixar entregues ao que os encanta e cega, a um mesmo tempo. E nunca se enfastiam, nunca se cansam da beleza que conferem em tudo o que vêem. É como se ver não fosse o bastante, por mais que se repita o ocaso, por mais que se levante a onda, por mais que brote flor.
Minha boca não profere todas as palavras que poderia, porque se ocupa de vasculhar a tudo que toca, a tudo que prova com tamanha entrega, com tanta atenção a cada gota. Ela desconhece a origem do que absorve, o tempo de plantio e de colheita, a maturidade dos lábios dos quais sorve o sumo. Ela não mede passados, beijos outros, promessas e juras desfeitas. Se atém ao que lhe justifica, ao que lhe dá sentido, ao que lhe sustenta o viço e o desvario.
Habito a esse corpo louco e é só isso. E ele desconhece planos, decisões tomadas, desenganos. A ele tem cabido apenas o consumir das horas, quando longe do que lhe dá abrigo. A ele tem bastado apenas o partilhar das coisas indizíveis, sem descrição, sem precedentes ou visões de futuro. Seu mundo é aquilo que lhe compete agora. Uma morada definitiva, decidida desde antes dele ser, sentir, querer. E ele ignora ritos, teorias, cabimentos. Ele apenas sente o que sente, vive o que sente, é o que sente.

Necka, 20.07.09

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