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4 de jan. de 2010

DF

O que ficará inscrito na humanidade pelos grandes daqui? Dos empresários exibindo carros zero, dos diretores desfilando crachás e proferindo suas autoridades? O que ficará gravado nos corações humanos das mulheres poderosas daqui? Das que emolduram jóias, das que convidam às salas grandes de visita de suas mansões, das que oferecem jantares como se fizessem caridade? O que ficará de seus nomes, de suas figuras que a nada criam, a nada dão vida? O que deixarão os poderosos, os eleitos, os vitoriosos, os abastados de útil à vida humana? Quantas almas terão conseguido tocar, enternecer, mudar, se suas vozes só serviram para ditar ordens, pronunciar condenações, registrar hipocrisias, sem jamais terem entoado cânticos de amor à vida? Quantos corações terão feito bater justificados, se seus gestos só serviram para comparar posses, moradas, objetos, bairros, automóveis, sem jamais terem acariciado de perto a pele carente e só de outro ser humano? Dedos de apontar defeitos em vez de dedilhar cordas ou escrever poemas...olhos de focar imperfeições alheias em vez de fitar contemplativos o céu lindo de Brasília e as muitas cores que têm...! Mais uma vez eu ouço a voz da autoridade e me surpreendo. Pois do que sou, do que um dia eu tiver sido, houve centenas de almas que toquei com o que me foi inspirado, com o que compus, com o que escrevi. Eu irei, com certeza! Mas o que deixei composto, cantado, visto, acariciado pela arte, os olhos que agüei emocionados, os corações que justifiquei quando cantei por eles e com eles, tudo ficará para sempre. Como em meus olhos dura mais tempo o brilho do amanhecer que vejo do que o das jóias que vejo passar por mim ou os automóveis.

04.01.2010


Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

(Quintana - Prosa e Verso, 1978)

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