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13 de jan. de 2010

Verânica

Toda essa confusão de palavras, essa correria a fim de coincidir com ponteiros, toda essa gente passando nas ruas, rostos, vozes, gestos brutos, todos esses corredores brancos cheios de apreensões, todo esse ruído misturado e desarmônico, essas intenções por trás de tudo, as máscaras, muitas, vestidas na tentativa de convencer-se a si mesmo dos motivos dos enganos, todas essas horas vazias, perdidas, inúteis, essas indecisões, essas hesitações diante de duas palavras apenas, esses descaminhos, labirintos onde pessoas entram e não querem, de fato, achar saída...toda essa vida desvivida, essas emoções caladas, essas fotografias coladas em murais, reverenciando passados concretos anunciando que futuros não virão...todas essas solidões solteiras, essas noites insanas de dores agudas que doem em todo lugar, todas essas vontades enviuvadas cedo demais, esses chamados ao telefone, esses pedidos de socorro que buscam a atenção e não o socorro, todas essas prévias anotações, apontamentos, declarações, pré-julgamentos, essa rejeição ao novo, ao diferente, todas as palavras duras de se ouvir e que se ouve, todas as coisas acontecendo num eterno ao-mesmo-tempo, tudo furta de mim o que queria adquirir. Um espaço, um lapso do tempo, uma fenda por onde passar despercebida, uma saída pra dentro de mim mesmo, todo esse peso e as minhas mãos descontraídas. Eu já vivera assim antigamente. De ir às ruas somente pra ver gente. De estar também ali, rodeada e só. Mas essa profusão cansou-me os olhos. Essa sonoridade insana poluiu-me os ouvidos. Cansaram-me as coisas vãs que ouvia, às quais dava toda atenção e nada delas vinha comigo, de volta pra casa. Eu vivi o bastante. E meu instante agora é de fitar quase qual crente a um pôster de oceano, jurando estar ali, beirando a areia à minha frente. Meu agora é este e é de quase sentir o sal da água sobre a saliva e, isso, apenas isso, me põe viva! De todo coração eu me confesso poder ver reflexo de raio de sol sobre a pele in-acariciável da onda. Minha loucura anciã já me permite a liberdade mais inteira, de crer que eu veja, quando a noite chega, um mar azul abrir-se dos teus olhos. E nele, a serenidade, o silêncio redentor do fim do dia...nenhum ponteiro, nenhuma rua, tudo se aquieta. Mergulho nessa cor inexplicável, me entrego à quietude homogênea das águas. Me deixo flutuar à deriva e me amparas...leve, sempre leve e sempre às claras. Ali, posso sentir o calor de cada raio de sol sobre minha pele, como se fosse verdade este verão...

Necka Ayala. 13.01.2010

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