Sim, eu creio. Creio porque, antes de tudo, o que falou mais alto, o que gritou sem deixar fresta por onde eu escapasse de ouvir, foi a matéria. Ainda que pudesse ter preferido ouvir a voz sussurrada e distante de uma alma qualquer que desconheço em mim, ainda que quisesse valorizar mais a uma intuição bonita, desfilando diante das minhas invenções e encantamentos, mesmo que gostasse da idéia romântica e antiga dos contos e das histórias críveis de encontros perfeitos, não, não foi assim que se deu. Creio, porque o que me veio não deixou saída, não gerou ilusão, não permitiu incerteza. Eram meus olhos pedindo mais daquilo que descortinavam aos poucos, sobre uma cama infamiliar; era a pele fina das palmas, deslizando sobre a brancura, que queriam sentir mais daquilo que, hesitantes, experimentavam ali; era meu ar que se embriagava daquele aroma ainda indistinto, que vinha do calor que havia debaixo dos lençóis, dado ao movimento dos corpos, no meio das noites; quando tudo ainda era inesperado e sem nome, sem batismo e sem morada, sem destino e sem calendário, ali, não me era possível negar. Por isso creio. Creio no fogo sagrado que se ascende além do que lhe iniciou. Creio na saliva que brota pura, do afã da fome pura, da pureza em si do que não se pode deter. Creio no que não deixe haver mentira, no corpo reagente, vivo - parte do que lhe acontece, lhe acomete, lhe assombra os sentidos. Creio na pressa do coração em bater tão forte e rápido quanto é forte o que lhe incumbe nexo. Eu creio, porque não foi abstrato nem fantasioso, nem foi sonho ou prece, nem teve a ver com poesia ou cena. Foram meus sentidos todos que se acenderam. Foram meus olhos que fizeram sentido depois de verem o que viram. Foram minhas mãos de inúteis artes que serviram finalmente a algum propósito inteiro. Foram meus lábios que enfim tocaram aquilo que lhes saciou. Foram minhas pernas que acharam caminho entre as tuas, no meio das noites quando tudo descansa e se encaixa. Foram meus braços que couberam certos em torno dos teus ossos. Foi meu corpo que achou de vez o seu formato enquanto entornava o teu e se entendia.
Necka. 17.05.2011
Necka. 17.05.2011
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