Ela abre os olhos e enxerga uma luz repetida de todos os dias que não enxergo eu, sempre nublada a estas horas. Sorri. Eu nunca. Não tenho motivos tão vespertinos para sorrir ao mundo que inda nem vi. Ela vê. Vê sentido em acordar feliz sempre, sempre aberta ao que o mundo estiver vestindo, oferecendo, noticiando. Demora a levantar-se. Eu não. Se estende numa outra foto sobre a cama, sempre linda demais para ser possível. E é. Contemplo a isso há tanto tempo que nem ouso mais descrer. Fios soltos coloridos caem sobre o rosto dela, como se tivessem ensaiado aquela queda, aquele caimento natural de quem nem se importa em ser perfeito. É. Eu não. Tenho sempre assuntos pendentes da noite que me tirou do eixo, que me pôs a revirar, a sonhar coisas, fantasiar, criar músicas impossíveis e mudas no meio das horas frias emadrugadas. Devo ter sonhado algo que me surpreendeu. Porque desperto desvairada, sem senso de direção alguma. Não sei se deleto ou retomo o que a noite sugeriu. Ela se espreguiça linda sobre o dia. Sai mais tarde da cama e invade a sala. Me abraça por trás da cadeira onde invariavelmente estou a ler notícias. Me cheira, sugando cada ar menor que minha pele permita. Escova os dentes, lava o rosto com água fria, prende os cabelos e volta a mim uma vez mais. Nunca quero nada a estas horas. Nada. Café e cigarro. Faço o que ela quer todos os dias. E ela se alimenta sorrindo, como se fosse novidade. Não é. Mais tarde ela começa a querer coisas. Quer sair. Quer ligar o carro e me levar. Eu vou. Porque sou encantada nas mãos dela na direção do carro. A forma como se move ao dirigir, no cabelo que se deixa ao vento e forma novas fotografias. De volta, ela sente fome ... toque, ... contato. Eu, nem sempre entendo, mas olho aquele corpo e a atitude de quem quer e isso basta e me rendo. Me encanta ver. Fascina a ela, amar. E tudo então se despe. Ela fecha os olhos para o beijo. Eu não. E só reage inteira quando permito que tenha. Vasculha. Encontra o que deseja e toma para si. Prende os cabelos. Acaricia com calma e desbrava de novo o que conhece. Ela me envolve e me deixa, me invade e me transborda. Sabe o que quer e vai como o vento vai adentrando os fios. Nada a impede de seguir. Meu corpo afunda em si mesmo e se redescobre nas mãos dela. Nunca mais teve calma. Nunca mais foi quieto depois dela. Nunca mais ousou teorias porque nada sabia sobre si mesmo. Ela visita pedaços demarcados, territórios que só foram seus, o são. Se embriaga e deixa que seus olhos caiam, noutra cor, noutro tamanho. Entra, fica à vontade e sorri ao perceber que instante vem vindo. Olha nos meus olhos e pronuncia tudo novamente. Os fios caem sobre minha pele sempre mais leves. Ela sabe tudo que não sei e começo a provar agora. Eu sei tudo que ela não sabe e começa a vislumbrar de longe, agora. É cedo para ela. É tarde para mim. Nossos passados já se parecem com coisas que não existiram. E o dia de amanhã virá ao certo despertar e abrir nela outro sorriso pleno. Em mim, as gotas que secaram pela noite e a loucura que sinto. O cheiro dela nas minhas mãos e as palavras para sempre insuficientes. E um futuro que agora quero, hoje à noite ainda.
Necka.
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