Pesquisar este blog

14 de mar. de 2012

Desencarnando

Quem deve o que a quem...? Não se ensina o caminho de volta disso. Nem há. Um primeiro passo, um segundo passo e fomos. Para chegar em algum lugar qualquer, talvez não aquele ao qual prometemos eternidade. Talvez tenhamos prometido para todas as vidas, que fosse assim, mas talvez todas as vidas sejam esta aqui, agora, e cada uma tenha o nome de fase apenas. Talvez tenhamos vivido todas já. E tenhamos chegado a esse ponto de chegada mesmo, aqui, agora, onde a loucura cedeu e confinou-se, deixando que a lucidez ocupe os cantos, vare as frestas. Talvez essas noites pertençam ao descanso e não mais a nós. Tivemos as nossas. Se foram. E aceito a isso como aceito que mais cinza se fixe sobre minha cabeça. Se algum dia fui de fato uma grata surpresa, fui e lá, foi bom. Se deixei de ser ou se teus olhos não enxergam mais, não sei. Não me cabe saber. Me cabe entender o instante, assimilar de novo a passagem dos anos, as coisas que não ficam, as novas que virão. Porque para cada coisa que morre, outra semeada floresce, vem e se faz plena. Não devo nada. Ninguém deve a mim. Não há caminho de volta quando se percorre o caminho inteiro, se bebem todas as taças, se derretem todos os gelos. A luz da sobriedade aqueceu e evaporou as águas que eram límpidas. Tivemos todas as vidas nesta que aqui está. Não deve haver mais depois. Nem creio que haja, nunca acreditei. Acredito que seja de cada um escolher e escolhemos cada um de nós, o próprio desenlace. E foi quando as palavras pronunciadas tiveram vez. Ocuparam o espaço que pertenciam aos silêncios das bocas ocupadas em beijar-se. As cartas e as cenas tomaram as horas que eram das peles e dos corpos. De repente, não há mais. As horas são das ruas, são da casa, dos projetos, das viagens, dos relógios coloridos que colecionamos. Não nossas. Não mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leio.