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14 de mar. de 2012

O Louco

Os amores são como impérios: desaparecendo a idéia sobre a qual foram construídos, morrem junto com ela.

(Milan Kundera – a Insustentável Leveza do Ser)

Minha bandeira era simples – residia em viver o todo. E o todo nada mais era do que a soma das partes, todas elas faceiras vivendo em comunhão. Todas as faces que tivesse, nuas, dançando livres, sendo a integridade do que são. Taças e gelos, luzes e sombras, sóis e luares, varandas e asas de aviões. Para tanto, me dispus a desnudar todas as vestes, despir todas as máscaras, ousar escolher as melhores palavras e encontrar as trilhas perfeitas. Para isso me propus a atravessar fronteiras das quais nada previa. Considerei o abismo como um vôo único. E o fiz. Eu não queria ser menos que o todo do que sou. E ainda me parece óbvio que só se pode ser o todo do que se é. E se alguma coisa deixa de ser, é porque não éramos aquilo. Às vezes tentamos arremedos de nós, mas a nossa natureza impera e voltamos a ser quem somos, no fim das contas, quando clareia o dia e a luz do sol toca nossa face…(O Louco, Gibran)

Eis que erguera um castelo sobre a idéia do encantamento, da rendição inevitável ao que me imantava, me seduzia, me levava, me conduzia, me tirava de onde eu estava. Idéia que me justificava quase que a vida inteira. Me redimia. E eu merecia aquele futuro que vislumbrava dali, daquela varanda nua. Olhava o céu desfilando cada dia mais lindo, mais colorido, mais farto, mais sedutor. E acreditava mais que tinha chegado a hora de ver exercidas as minhas teorias. Eu via. Via na pressa das horas, nas palavras enviadas e recebidas, um tom de veracidade tão crível, que não havia como jogar dúvida em toda aquela luz branca e branda. Erguera um castelo em 26 metros quadrados – e ali reinava o paraíso em vida. Dançava eu, dançavam minhas faces desnudas. E tinham par. Achava eu. Se eu era a lua, tinha um poeta a me espreitar. Se eu era a música, tinha um ouvinte a me repetir. Se eu era a calma, tinha um canto para descansar. Se era loucura, tinha um corpo para hospedar. Erguera um castelo onde habitavam felizes, pensava eu, todas as palavras-laço. Tinha o todo de um amor que viera curar machucaduras; tinha o todo de uma cumplicidade que viera fazer companhia ao que era todo só; tinha toda uma paixão inesperada que viera propor o novo ao que era gasto e nem sempre feliz; tinha toda a faceirice legítima que viera romper a seriedade e a aspereza dos dias comuns; era o todo, enfim, jurava eu. E para tanto, me dispus a deixar todas as bagagens na estação, todos os medos rentes ao solo. Trouxera à superfície uma pele submersa. Aberto, o presente, parecia ter mesmo não perdido a graça, ingênua eu. (quando posto o que digo, vira certeza e o tempo trata de concretar)

Mas eis que veio o tempo. E a idéia sobre a qual havia erguido aquele castelo, se desfez na razão soberana do lado de lá. Eu era feita de encantamento e era ele quem me conduzia. Do lado de lá, havia o concretismo sóbrio, e aquele céu só servia mesmo de plano de fundo para os aviões. Do lado de cá era eu e minha embriaguez cega, devota da beleza que todas as coisas poderiam ter, se quisessem. Do lado de lá era o todo da razão que mantém tudo sob controle, próspero, seguro e certo, firme, sólido, válido. Oceano versus córrego, sei lá. E eu jurava que havia visto uma borboleta cor de laranja sobrevoando janela. Nada! E se vi, ficou para minha memória que não falha – minha, somente minha. Castelos, céus, borboletas…de nada servem diante do tempo que passa, do trânsito, do cansaço, da razão que adquire roupas novas e desfila altiva diante dos olhos tolos dos poetas, cujas canoas ancoram finalmente, um dia, para sempre.

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