Hoje encontrei um tipo de leveza em algum canto de mim. Qualquer coisa a ver com ficar, de repente, em paz com tudo que me cerca, ao mesmo tempo em que ficava em paz com tudo que se afasta. Uma resignação, talvez. Mas não aquela triste, melancólica – de desistência. Uma outra, de quem diz enfim, tá bom. E sorri apenas, diante de todos os espelhos.
Talvez este seja o preço que custem as minhas coisas, o retorno a elas. Talvez eu tenha, de fato, de voltar o todo dos meus olhos para o que está somente dentro, aqui, onde ninguém mais alcança. Um lugar qualquer, aquele canto – onde repousam quietas as coisas que virarão palavras. Onde esperam brutas as coisas que virarão outras coisas, lapidadas. Onde peças ainda são peças e não viraram a noite, inconclusas.
Já entendo que quando me volto toda para o que me encanta, me afasto do que mais sou. As coisas que me encantam se voltam para o que lhes encanta e, de repente, volto a estar só com meus encantamentos desencontrados, cobertos de por quês. Nesses instantes vazios, entendo que é hora de voltar-me a mim de novo. Nova. A que se acresceu de mais idas e vindas. A que somou-se a tudo que experimentou e agora sabe. Agora sei mais. Hoje sei mais. Sei mais sobre existirem tamanhos cursos que todas as coisas tomam, que não há como prever o que será. Às vezes não será mais como era. Às vezes a noite é só a noite. Às vezes um não é muito mais que um não.
E nessa constatação recente, encontrei um tipo de leveza em algum canto de mim. Estava ali, serenamente esperando por mim, que andava vagando irada, jogando pedras em aviões. Andava em fúria com Deus, tentando domar tempestades. Sem mais nem menos acorda dentro de mim, silenciosa, uma serenidade. Aceito. Aceito que se enegreça o céu e se rompam nuvens de chumbo sobre meus vidros. Aceito que Deus tenha se cansado de meus pedidos repetitivos. Aceito que a noite seja a noite e que, para conhecê-la bem, tenha de ser insone. E a idade, e o tempo que não tenho mais, o cansaço, a resposta que não vem mais, talvez um bairro novo que eu nem queira, talvez nunca mais voltar para a terra amada...
Talvez seja apenas a hora, aquela. Em que mais uma etapa se conclui em si mesma e não se explica. A conheço. Já a vi antes outras três vezes. A hora de despedir-se de uma face que não encontra mais seu próprio reflexo e desiste de vir à tona. A que se recolhe à sua impermanência. A que sabe que dura o quanto dura, o quanto o amor se demore a reinar absoluto. Ela se vai. Se despede vestida de novo de seu manto – um capaz de devolver-lhe máscaras seguras, cenários – casta. Ela se despede agora. Que vá em paz.
É noite novamente. Noite de estrelas depois da tempestade. Tudo se aquieta finalmente. Tudo.
Necka Ayala – 14.03.2012 – 1h17
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Leio.