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19 de out. de 2012

Pátria


Sou grata pelo nome que recebi. Gosto dele. Grata por ter descoberto uma forma íntegra de ser quem sou – cara lavada, cabeça raspada e sobrancelhas demais. Gosto do apelido que intuí que teria. Grata por ter nascido aqui, neste país completamente lindo, amplamente absurdo, lindamente louco! País que, antes de parir filhos, pariu a arte para eles, em todas as suas plurais expressões. Onde se joga bola como quem dança, se dança como quem não pesa, se anda nas ruas vestidos de Jorge, se canta como se cantar fosse mais que viver; país onde ciganas analfabetas lêem a mão de educadores mal-pagos e há quem construa essa oração para lembrar-nos como somos loucos e lindos, nós, brasileiros. Loucos em seguir construindo cada um, à sua maneira, a parte do mundo que os situa. Nós sem-terra e com toda essa terra exuberante e farta ao nosso entorno. Nós sem-casa nos sentindo em casa, eternamente abrigados por 27 países dentro de um só. Nós sem-educação, sendo gentis por natureza com aqueles que ainda conseguem ir, tendo menos que nós, sem língua. E os tendo como heróis da resistência de guerras que declinamos. Nós, cidadãos que sorrimos e não fechamos os vidros dos carros na cara de nossos semelhantes. Nós, os semelhantes que também entendemos que a roda roda e, um dia, talvez sejamos nós ali, naquele lado fumê dos vidros, lado de fora. Sou grata por circular por aí, sendo parte, sendo plateia desse espetáculo que é a vida aqui, neste país que não pertence ao primeiro nem ao terceiro mundo, mas ao todo dele, por ser único. E minha prece agradece ao que vim, ao que veio. Grata pelo nome que recebi ao vir à luz das cinco da tarde, naquele agosto primeiro. Pontual. Grata por vir rarefeita, refeita, renascida de mim mesma, a despeito do que se opunha, corri em tempo hábil e me fiz. Depois passei a andar mais lenta, me permitindo ver a vista, observar os cães e seus donos, os céus e sua infinda abrangência, as paredes e os limites arquitetados. Acabou que, sendo feliz, passei a temer a morte. As andanças me levaram àquela que compartilha comigo agora quase todos os passos. E também sou grata por ela que me fez poder ser finalmente e toda assim. Sem eira nem beira, sem perder o sotaque dos pampas, sem esquecer nem um único sorriso avulso e desdentado, como jamais esqueço que jamais saberei que cor têm aqueles olhos agora...

Necka.

Um comentário:

  1. Esses olhos, agora tem a cor azul, cor que sempre se encontra neles quando escreves, quando tocas. Eles tem agora a cor que mais gosto, mas que somente tu és capaz de faze-los ter. TE AMO!

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Leio.