Sou
grata pelo nome que recebi. Gosto dele. Grata por ter descoberto uma forma íntegra
de ser quem sou – cara lavada, cabeça raspada e sobrancelhas demais. Gosto do
apelido que intuí que teria. Grata por ter nascido aqui, neste país
completamente lindo, amplamente absurdo, lindamente louco! País que, antes de
parir filhos, pariu a arte para eles, em todas as suas plurais expressões. Onde
se joga bola como quem dança, se dança como quem não pesa, se anda nas ruas
vestidos de Jorge, se canta como se cantar fosse mais que viver; país onde
ciganas analfabetas lêem a mão de educadores mal-pagos e há quem construa essa
oração para lembrar-nos como somos loucos e lindos, nós, brasileiros. Loucos em
seguir construindo cada um, à sua maneira, a parte do mundo que os situa. Nós
sem-terra e com toda essa terra exuberante e farta ao nosso entorno. Nós
sem-casa nos sentindo em casa, eternamente abrigados por 27 países dentro de um
só. Nós sem-educação, sendo gentis por natureza com aqueles que ainda conseguem
ir, tendo menos que nós, sem língua. E os tendo como heróis da resistência de
guerras que declinamos. Nós, cidadãos que sorrimos e não fechamos os vidros dos
carros na cara de nossos semelhantes. Nós, os semelhantes que também entendemos
que a roda roda e, um dia, talvez sejamos nós ali, naquele lado fumê dos
vidros, lado de fora. Sou grata por circular por aí, sendo parte, sendo plateia
desse espetáculo que é a vida aqui, neste país que não pertence ao primeiro nem
ao terceiro mundo, mas ao todo dele, por ser único. E minha prece agradece ao
que vim, ao que veio. Grata pelo nome que recebi ao vir à luz das cinco da
tarde, naquele agosto primeiro. Pontual. Grata por vir rarefeita, refeita,
renascida de mim mesma, a despeito do que se opunha, corri em tempo hábil e me
fiz. Depois passei a andar mais lenta, me permitindo ver a vista, observar os
cães e seus donos, os céus e sua infinda abrangência, as paredes e os limites
arquitetados. Acabou que, sendo feliz, passei a temer a morte. As andanças me
levaram àquela que compartilha comigo agora quase todos os passos. E também sou
grata por ela que me fez poder ser finalmente e toda assim. Sem eira nem beira,
sem perder o sotaque dos pampas, sem esquecer nem um único sorriso avulso e
desdentado, como jamais esqueço que jamais saberei que cor têm aqueles olhos
agora...
Necka.
Esses olhos, agora tem a cor azul, cor que sempre se encontra neles quando escreves, quando tocas. Eles tem agora a cor que mais gosto, mas que somente tu és capaz de faze-los ter. TE AMO!
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